sábado, 3 de dezembro de 2011

Opinião - O Sangue e o Fogo

Título Original: O Sangue e o Fogo - Trilogia Cénica
Autor: António de Macedo
Editora: Edições Saída de Emergência
Número de Páginas: 500

Sinopse
Quem se atreverá a entreabrir a porta do perigoso quarto onde se guarda e se esconde, da vista dos profanos, o código que decifra o segredo dos segredos?

Prepare-se para uma viagem fantástica que começa nas ruínas da lendária Khalôm, cujas ruas eram percorridas pelas almas dos mortos porque um terrível sortilégio impedia o acesso às regiões celestes a quem morresse dentro das suas muralhas; uma viagem que continua com o choque entre os fanáticos rigores da Inquisição e as acções de bruxas que assolam uma vila no Alentejo; uma viagem que termina com um professor que capta as frases ditas por Jesus um mês antes da sua crucificação e que podem abalar os pilares em que assentam os principais dogmas da Igreja.

Opinião
 Há algo que sempre me fez impressão neste país. Os bons escritores são aqueles que são publicitados, estão em tops e toda a gente lê por causa disso. Ou então são aqueles que dão reconhecimento ao nosso país mas só se lembraram deles passado um número de anos da sua morte. Ou então basta um prémio para os adorarem. Não quero com isto dizer que alguns não são bons escritores porque são mas essa é a minoria.
Há bons livros e maus livros tanto aqui como em qualquer outro lado e como portuguesa, leitora, estudante, cidadã é sempre com orgulho que quando leio um livro em português bom, realmente bom me sinta muito satisfeita. Principalmente quando esse livro sai dos cânones típicos da literatura que se escreve em Portugal. Principalmente quando é revolucionário para a sua época, quando combateu preconceitos e varreu do ombro os queixumes que se fizeram ouvir por aqueles que não sabem do que se fala nem se trata. E, acima de tudo, porque afinal, até somos inovadores mas há quem se esqueça disso.
Este livro é isso e muito mais. Para quem não sabe, O Sangue e o Fogo é constituído por três peças escritas por António de Macedo, como indica o título original do livro, é uma trilogia cénica, e foram idealizadas em alturas diferentes da sua vida, com objectivos diferentes. A última a ser escrita, foi-o em 1988, se não me falha a memória.
Para os leitores do Portugal de hoje, se calhar não o vão achar tão original mas é exactamente para não terem tais ideias, antes da sua leitura não podem deixar de ler o prefácio que o autor nos apresenta. É aí que a vossa mente é esvaziada e preparada para o que vão ler a seguir. Foi aí, ao conhecer a história das histórias, as razões e momentos que fazem delas mais do que histórias que o meu entusiasmo cresceu. Porque muitas vezes esquecemo-nos disso.
O meu maior medo quanto a este livro foi que ele fosse muito profundo, maçudo, muito intelectual. Para aqueles que são ou foram estudantes universitários acho que percebem onde eu quero chegar. Geralmente os professores tendem a parecer que vivem numa dimensão diferente da nossa, que falam outra língua, e nos ficamos a sentir-nos parvos porque eles são demasiado eruditos. Isso não acontece neste livro. É profundo sim, faz-nos pensar, é subtil por vezes mas quando damos conta já lemos metade dele sem nos aborrecermos e sem pensar “Não percebi nada disto”. Outras vezes é directo, sarcástico, da ironia mais suave que eu já vi. É tão brilhante que quando acabámos de processar a informação, dá gosto voltar atrás e reler mais uma vez.
Em cada uma das peças vemo-nos transportados para épocas e cenários diferentes. Cada uma delas tem uma história para ser contada, as suas personagens, os seus temas e objectivos. Em cada uma delas vão aprender algo de novo. O vosso espírito vai ser preenchido e a vossa mente vai sentir-se estimulada.
É brilhante, e se calhar até vão mesmo pensar que é inovador para o século XXI. Uma coisa é certa, vão gostar de saber que o seu escritor é português.

6*

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