segunda-feira, 9 de abril de 2012

Leitura Elitista: Ainda Existe?

Enquanto leitora tenho assistido ao longo dos anos àquilo a que se pode chamar snobismo literário ou elitismo da parte de algumas críticas, revistas e leitores quanto à géneros como a Fantasia e a Ficção Científica. A verdade, é que não noto tanto ataque e acho que hoje em dia estes dois géneros têm uma grande preferência por parte dos leitores, pelo menos nos meios por onde ando, mas isso não quer dizer que já não exista. Quantos de vocês já não terão ouvido que lêem demasiada literatura comercial, "livros com coisas estranhas" e que vivem no mundo da fantasia quando deviam ler livros "a sério"? Quantos de vocês já não o disseram?

Eu já ouvi coisas como "por leres demasiado livros desses vives num conto de fadas e não sabes o que é a realidade". Isto é ridículo até porque leio de tudo um pouco mesmo que ache que não vá gostar. Uns dias até tenho sorte e gosto mesmo. No fundo, apesar de me ter iniciado nos clássicos como Alexandre Dumas, Walter Scott, Leo Tolstoi ou Victor Hugo, a minha passagem para a Fantasia como Harry Potter ou Philip Pullman, deu-se de uma forma natural e nada problemática e, talvez, seja por isso que eu não entendo este snobismo que muitos têm contra alguns géneros. O livro serve para desanuviar, para nos transportar para outros mundos, para nos fazer pensar, sonhar e acreditar. Serve para nos ensinar, também. Mas como é que se pode colocar limitações a algo que é infinito em toda a sua sabedoria?

A verdade, é que depois de ver o The Jane Austen Book Club, este tem sido um tópico que me tem dado que pensar já que o filme fala sobre duas das minhas escritoras preferidas: Jane Austen e Ursula Le Guin. Continuo sem perceber como é que se pode dizer que uma melhor que a outra? Eu não consigo. Se Jane têm um senso intransponível, uma forma de criar personagens únicas e de a partir de histórias simples nos dar algo complexo que puxa por tudo aquilo que forma um ser humano, Ursula cria mundos únicos a partir de problemas actuais e cria algo de único. São ambas diferentes, logo não se podem comparar.

Por exemplo, se me pedissem para escolher entre Duna e Guerra e Paz, eu ficava com os dois. Não existe leitura apropriada e um clássico não é diferente de um clássico de FC, se são ambos assim considerados é porque ambos são bons livros, apenas não se podem comparar porque são de géneros diferentes. Um escritor de Fantasia não é menor que um escritor de Literatura Contemporânea, até porque o primeiro tem de criar todo um mundo novo e o segundo tem de aproveitar o mundo real para criar algo mais. No meu ver, não é assim que se distinguem os bons escritores dos maus.

Existe um clássico que é um bom exemplo de que o "anti-natural" sempre existiu na chamada Literatura Apropriada. O que é Alice no País das Maravilhas senão um livro de fantasia muito pouco infantil? A Ilíada pode mesmo ser considerada hoje em dia a primeira obra de Fantasia, o que não deixa de ser engraçado, uma vez que é a maior obra da Literatura Ocidental E a primeira.

Pergunto-vos, será um leitor de Fantasia menos do que um leitor de literatura contemporânea ou dos clássicos? Não é, lamento informar-vos, até porque se fosse eu própria estava numa crise existencial. Há clássicos soberbos e há os medíocres, há obras de fantasia magníficas e há outras que estão boas para o lixo. Isto é igual em todos os géneros, há coisas que não são comparáveis. Cada género tem os seus bons e maus mas entre eles não é possível comparar porque cada género tem as suas especificidades e características.

Mas isto é apenas a minha modesta opinião, de uma jovem cujos livros preferidos são O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas e a Trilogia das Jóias Negras de Anne Bishop.

7 comentários:

  1. Olá,
    acho que poderia ter escrito este post há uns anos atrás (e atenção, não estou a falar de idades). Ultimamente tenho mudado um pouco de opinião e explico porquê.
    Defendi durante anos que não havia maus livros, que havia livros certos para cada pessoa. Mas ultimamente vejo nas livrarias "livros a metro", todos iguais e começo a questionar se aqueles livros são "bons" ou não. Aos 10 anos faz todo o sentido ler os 21 volumes dos cinco (só considero os antigos, os de banda desenhada sempre me fizeram confusão), os 32 da Patrícia, etc, mas aos 20 ou aos 30 fará sentido ler 10 volumes, praticamente iguais, para se chegar onde sabíamos que se iria chegar no inicio do primeiro? Faz, se considerarmos apenas o prazer imediato de ler uma história, mas deixa de fazer quando se considera que a beleza dos livros está no que aprendemos e na beleza das palavras.
    Enfim, estou a esticar-me porque a ideia é mesmo dizer que gostei do post, que adoro o Conde de Monte Cristo e que gosto bastante de Anne Bishop (autora que leio precisamente pelo tal "prazer" de ler uma boa história e não propriamente pela beleza literária dos seus livros)
    Boas leituras (e desculpa pelo comentário enorme)
    Patrícia

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  2. *clap clap clap* É uma coisa que me chateia imenso no mundo da literatura, os snobismos que se geram entre géneros. Como tu, entre os meus livros favoritos contam-se livros de alguns géneros diferentes, por isso não faz para mim sentido haver essa "discriminação de género". :/

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  3. Patrícia, há bons e maus livros, isso é uma coisa que eu não nego e que defendo pois sei que já escrevi muitas opiniões bem cruéis, se assim quisermos chamar.

    O que eu digo é que dentro de um género existem muitos bons livros e outros maus e eles são comparáveis porque estão dentro da mesma área mas quando falámos de géneros diferentes, não é justo compará-los porque cada um tem uma beleza própria.

    Claro que há obras-primas e outros que só nos dão prazer de ler e, é óbvio, que os livros que ensinam têm algo mais. Mas será mesmo que um clássico ensina mais que um livro de fantasia? Duvido.

    Eu gosto de comentários grandes, escreve à vontade, é bom saber o que outros pensam =) e obrigada!


    P7, eu era mais elitista aos 9 do que sou hoje aos 20 e gosto de pensar que isso significa que cresci e abri horizontes.

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  4. Não faz sentido comparar géneros. E cada pessoa gosta mais de um género do que de outros. Mas atenção: nunca disse nem acho que um clássico ensine mais que um livro de fantasia. Até porque há fantasia e fantasia. Um exemplo: nunca fui tantas vezes ao dicionário como a ler o"evangelho do enforcado", do David Soares, que é um livro de fantasia. Aprendi imenso e adorei o livro. E há clássicos que "valha-me deus", são uma estopada que ninguém aguenta. Mas confesso que alguns dos livros e séries que são editados actualmente me fazem um bocadinho de confusão. Escrevi um post sobre isso há uns tempos onde dizia que me estava a tornar uma "pedante literária".
    Acho que o facto de já não ter muito tempo para ler me fez ficar um bocadinho mais selectiva e que o facto de adorar fantasia e o facto de ultimamente ficar desiludida com os livros de fantasia que leio também não ajuda (tanto que nem sequer li os últimos livros da Juliet Marillier, eu que tanto gostei da trilogia de sevenwaters).
    :)

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  5. Pois não, mas é o que muitos leitores faziam e ainda fazem, ainda há géneros " excluídos". Quantas vezes por exemplo vês numa revista, ser elogiado um livro que não seja de um assunto considerado sério ou académico? Ou então para mal dos nossos pecados elogia-se aqueles que não faziam falta nas livrarias? Eu sei que não era isso que quiseste dizer, eu é que não me fiz entender bem, desculpa.
    Se és uma pedante literária está descansada porque eu também sou ;) há coisas que nem consigo suportar ver na livraria quanto mais na minha estante. Eu acho que se gostámos de um género devemos ler o que de melhor há nele. O que pode acontecer é termos azar e o livro, pelo menos para nós, não ser aquela coisa fantástica que o resto do mundo diz.

    Eu adorei "O Monte dos Vendavais" mas isso não significa que tu também tenhas gostado e não é por isso que vamos andar a batatada e que eu te vou chamar burra ou algo pior ainda como muito boa gente faz. Até porque por mais pedantes que sejamos, não andámos para aí a insultar, certo?=)

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    1. Certissímo.
      Eu gosto imenso de discutir sobre livros, principalmente quando a outra pessoa não concorda exactamente comigo.
      E nisso tens razão: basta que tenhamos outra opinião e somos taxados de burros. Já me aconteceu várias vezes.
      Esse elitismo acontece nas revistas e na própria blogosfera. O que é bastante triste.
      :)

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    2. Também eu, afinal essa é uma das finalidades de um livro, ver as várias perspectivas que uma leitura pode dar.
      Triste, sem dúvida Patrícia, porque estamos a falar de meios que influenciam pessoas alheias a ler determinado tipo de livro.

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