segunda-feira, 30 de julho de 2012

Opinião - No Reino de Glome (Até Termos Rostos)

Título Original: Till We Have Faces
Autor: C.S. Lewis
Editora: Cavalo de Ferro
Número de Páginas: 256

Sinopse
 «Agora já estou velha e não temo a fúria dos deuses… irei escrever neste livro tudo aquilo que uma pessoa que é feliz não se atreveria a escrever. Vou acusar os deuses, especialmente o deus da Montanha cinzenta. Vou contar tudo o que ele me fez, como se estivesse a apresentar a minha acusação perante um juíz. Eu sou Orual, a filha mais velha de Trom, rei de Glome.»

O Reino de Glome, situado nas montanhas da fronteira com a antiga Grécia, é um reino bárbaro que pratica um culto obscuro à cruel deusa do amor, Ungit, e ao seu filho, o deus da montanha, a que os gregos chamam Afrodite e Cupido. Quando Trom, o rei, casa novamente e dessa relação nasce Psique, a sua irmã mais velha, a princesa Orual, está longe de imaginar que esse nascimento irá modificar a sua vida e o curso da história.

Psique é de uma beleza inigualável, tão bela que o povo se esquece do culto a Ungit. A cruel deusa exige que a princesa seja oferecida em sacrifício ao deus da montanha e os acontecimentos precipitam-se…

Opinião 
 Amigo chegado de Tolkien, C.S. Lewis partilhou com ele experiências universitárias em Cambridge, fizeram parte de um grupo literário conhecido como Inklings onde eram as principais personalidades e o título dos maiores escritores do fantástico do século XX, lugar que ainda mantém na actualidade.
Conhecido pela sua série As Crónicas de Nárnia, leitura ainda hoje obrigatória para qualquer amante da fantasia ou para quem se queira iniciar no género, recentemente re-adaptada ao cinema, C.S. Lewis foi o primeiro professor de literatura medieval e renascentista da Universidade de Cambridge, tendo-se dedicado a escrita dos mais variados géneros, desde literatura medieval a crítico literário, ao estudo da apologética cristã à fantasia.
No entanto, muitos desconhecem que a grande obra deste autor não é a série que muitos leram e releram mas um pequeno livro praticamente desconhecido, No Reino de Glome, que podem encontrar perdido nas livrarias ao módico preço de €3. Escrito devido à insatisfação do autor em relação ao conto de Eros (Cupido) e Psique, é uma reinterpretação desta história que terá sido a origem do conto de Charles Perrault, A Bela e o Monstro.
Foi enquanto leitora e estudante de tragédias e contos gregos que peguei neste livro, visto que nunca fui uma apaixonada das Crónicas de Nárnia, e foi com um encanto crescente que li cada página deste pequeno maravilhoso livro que me confirmou o génio literário de Lewis, que conseguiu dar vida a uma história com milhares de anos e reinterpretá-la para a contemporaneidade sem macular o estilo clássico inerente ao conto.
Usando Apuleio enquanto fonte, o autor não se dedicou a história de Eros e Psique, antes inseriu-a num reino desconhecido e na vida e reinado de uma das irmãs de Psique, sendo a história dela que nos é contada, onde percorreu-mos a forma como a história de amor influenciou a vida desta irmã, princesa e depois rainha, criando uma espécie de tragédia grega na fantasia.
O facto de C. S. Lewis ter respeitado e mantido o estilo greco-romano do conto, de ter incluído com tal mestria as características da tragédia e, mesmo assim, ter conseguido dar-lhe o seu toque e estilo mostram o quão bom escritor este irlandês era pois não se trata de uma cópia mas adaptação soberba onde as questões do seu tempo se sobrepõe nesta mistura do clássico com a fantasia na sua forma mais genuína pois os gregos foram não os pioneiros mas os grandes mestres desta mistura do maravilhoso com a história.
Neste livro fica demonstrado o quão actual os mitos e contos clássicos podem ser mas também a criatividade de um escritor e o respeito de um professor de literatura pelas suas diversas formas, já que alterar um pequeno pormenor do conto, Lewis conseguiu tornar esta história somente sua, podendo fazer com ela o que quisesse e criar toda uma nova história em seu redor. Ao longo de páginas sentimo-nos deliciados pela sua capacidade de compreender a alma humana, a essência das acções do homem e a forma como o destino pode ou não ser alterado, dando-nos uma leitura cheia das mais cruas emoções inerentes à humanidade.
Ao adaptar os cultos de Vénus à deusa de Glome, apresentando a forma mais cruel e desconhecida da divindade, a parte oriental desta deusa tão pouca grega na sua essência, o autor demonstra conhecimento e perícia, pois é difícil reconhecer nela a deusa do amor da Ilíada ou da Eneida e, assim, conseguiu torna-la também sua e moldou-a de forma a construir esta história de uma forma menos divinizada.
Os diálogos e personagens fogem daqueles que ele nos habitou em Nárnia, pois mesmo personalizando-os ao seu gosto, manteve os ideais da narrativa clássica, o que permitiu o florescimento do espírito da história. Ao contrário da outra série, esta é uma história mais obscura, mais dura, mais crua, mais directa ao leitor. As personagens representam as fraquezas humanas, o anseio pelo poder, o amor e o ódio aos deuses, não são bonitas nem doces, à excepção de Psique, tanto física como psicologicamente são do pior e mais grotesco que o homem pode ser até ao seu juízo final.
Por último, tenho de referir a parte final do livro, tão clássica e cristã ao mesmo tempo, demonstrando mais uma vez que o autor deu tudo de si nesta livro juntado os seus estudos aos seus credos num tribunal em que ambas as influências se notam de forma brilhante.
O autor ganhou a minha estima com este livro e aconselho tanto a fãs como aos leitores que como eu não tiveram um carinho tão especial pela sdua outra obra, àqueles que estudaram ou gostam de literatura clássica que procurem este livro e o leiam porque é uma surpresa bastante agradável.

 7*

3 comentários:

  1. Olá!
    Por acaso gostei muito das Crónicas de Nárnia e pude reconhecer que C.S. Lewis foi um grande escritor. Mas a tua opinião sobre este livro fez-me querer lê-lo! Se há outra oportunidade de ler C.S. Lewis, tenho que aproveitar :) Obrigada pela tua opinião.
    Beijinho

    ResponderEliminar
  2. Sempre tive imensa curiosidade em ler algo deste senhor . Pensei em ler Narnia mas, sinceramente não apetece adquirir os livrinhos em português e separadamente. Se houvesse um volume único como em alguns países era ouro sobre azul. Contudo, este que aqui falas parece-me uma opção. Com tanto elogio teu, dá vontade de o ler:).

    ResponderEliminar
  3. Neptuno_avista é uma excelente oportunidade, até porque arranjas um livro numa FNAC a €3! Um livro destes por esse preço é sempre um mimo ;)

    Jojo, para quem gosta da cultura clássica e de boa fantasia, este é o livro certo, pois está ao lado como o Senhor dos Anéis no título de melhor fantasia do século ;) eu não sou grande fã do senhor Lewis mas este livro é mesmo bom!

    ResponderEliminar