domingo, 28 de outubro de 2012

Opinião - O Tempo dos Milagres

Título Original: The Age of Miracles
Autor: Karen Thompson Walker
Editora: Civilização Editora
Número de Páginas: 256

Sinopse
 Nunca é aquilo que receamos que acaba por acontecer. As verdadeiras catástrofes são sempre diferentes – inimagináveis, inesperadas, desconhecidas… E se o nosso dia de 24 horas se tornasse mais longo, primeiro em minutos, depois em horas, até o dia se tornar noite e a noite se tornar dia? Que efeito teria este abrandamento no mundo? Nas aves do céu, nas baleias do mar, nos astronautas do espaço e numa rapariga de onze anos, a braços com as mudanças emocionais da sua própria vida? Uma manhã, Julia e os pais acordam na sua casa nos subúrbios da Califórnia e descobrem, juntamente com o resto do mundo, que o movimento de rotação da Terra está a abrandar visivelmente. A enormidade deste facto está quase para além da compreensão. E, no entanto, ainda que o mundo esteja, na realidade, a aproximar-se do fim, como afirmam alguns, a vida do dia a dia tem de continuar. Julia, que enfrenta a solidão e o desespero de uma adolescência difícil, testemunha o impacto deste fenómeno no mundo, na comunidade, em si própria e na sua família.

Opinião 
 Nascida e criada em San Diego, Califórnia, Karen Thompson Walker estudou Inglês e Escrita Criativa na UCLA e foi nesta instituição que começou a dedicar-se ao jornalismo, actividade que continuou mais tarde até se mudar para Nova Iorque, onde trabalhou como editora, tendo sido o rebuliço dos transportes desta cidade que a permitiu escrever este livro a caminho do trabalho mas que não a impediu de o situar na sua paisagem natal do outro lado do país.

O Tempo dos Milagres é um livro de tamanho pequeno mas que contém em si mensagens de grande importância, relatadas numa escrita simples e fluída que promove uma leitura rápida de grande entendimento. Emprestado e recomendado por uma amiga, este livro é dos primeiros que leio sobre a temática do fim do mundo que tanto tem assolado as livrarias, mas rapidamente deu para perceber que, no seu todo, este livro está muito longe de todos os outros. Não apenas o fim do mundo faz parte dos temas do livro como o fim da infância, a importância da família, o peso da religião ou o comportamento das crianças em sociedade, o que torna esta leitura, apesar de tão curta, uma leitura que dá que pensar, que nos põe a colocar questões que nunca antes tínhamos pensado.
O movimento giratório da Terra à volta do Sol está a abrandar, colocando em causa todas as formas de vida e verdades indiscutíveis da vivência do ser humano. Os dias aumentam, o tempo altera-se e as pessoas têm de se adaptar a uma outra forma de vida mas, mesmo com o mundo a acabar, os sentimentos e vivências inerentes ao ser humano não desaparecem e mesmo num dia diferente e num mundo diferente, o amor continua a acontecer, a amizade pode perder-se e as certezas podem cair. Ao olharmos para a realidade que a autora nos apresenta, não é difícil imaginar que isto pudesse realmente acontecer e, é talvez, mais real que o mundo acabe em segundos do que com catástrofes de tamanhos inimagináveis mas, não deixa de ser assustador, que esta visão de fim do mundo acarrete a continuação de um dia-a-dia que, com alterações psicológicas, uma revolta interior e uma esperança que se pode manter mesmo com os cenários mais devastadores, vai marcar o ser humano de formas inesperadas enquanto a sua vida continua.
Mais do que um relato de alterações naturais, este livro vai pôr em causa tudo o que faz parte da nossa vida pois, mesmo que as marés se alterem, os dias durem horas intermináveis sem que possamos voltar a sentir o sol a aquecer-nos a pele, que as noites sejam cada vez mais escuras, que tudo o que é verde morra, a verdade é que as maiores e mais importantes transformações dão-se dentro de nós. Olho para este livro como uma dicotomia entre vida e morte, luz e escuro, entre físico e psicológico, onde o mundo vai esmorecendo enquanto uma menina floresce num espaço árido sem raízes que a agarrem. A escolha de temas da autora mostra uma clara inteligência e compreensão, ao apresentar-nos duas realidades e ao contar com uma narradora que se encontra entre a infância e a adolescência, que vê o seu mundo exterior mudar enquanto o seu interior se revolta para uma nova realidade.
Para além das mudanças climatéricas e da adaptação dos homens a uma nova realidade social, assistimos ainda ao crescimento de Julia e a forma como a sua família reage a este acontecimento catastrófico. Sendo uma menina de onze anos, está prestes a enfrentar a difícil passagem da infância para a adolescência, o primeiro amor, a perda das amizades e a constatar que nem tudo o que parece é nem os finais são sempre felizes. É pelas suas palavras que encarámos as suas dúvidas, o seu crescimento, as suas alegrias e tristezas, a forma como vê as diferenças que estão a assolá-la e ao mundo. Julia tem de enfrentar a quebra da sua família, a falsidade dos jovens da sua idade, a pureza de um carinho que nasce dos pequenos gestos e ao acompanhá-la nesta fase da sua vida compreendemos que a vida nunca para, por pior que estejamos, por mais que tudo a nossa volta esteja a ruir.
Como primeiro livro da autora, O Tempo dos Milagres é uma leitura envolvente, mesmo com as falhas de um primeiro manuscrito, onde o final é previsível e pouco satisfatório, onde esperávamos muito mais e tudo acaba por passar demasiado depressa em conclusões pouco concretas. Depois de duzentas páginas intensas, seria de desejar um final muito melhor mas, que ao não acontecer, mata um pouco do sentimento que nos assola durante a leitura.
Numa dualidade única escrita com uma sensibilidade e aceitação que faz com o leitor sorria com esta criança e estremeça com os factos, este livro é uma aposta para quem aprecia o tipo de distopias simples, narrativas intensas em poucas palavras e leituras que marquem o pensamento para mais tarde recordar.
Um livro que me deu umas boas horas de leitura e muitos apreciarão na sua beleza crua e inocente.

5*

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