quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Opinião - Raptada

Título Original: Wither (#1 O Jardim Químico)
Autor: Lauren DeStefano
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 256

Sinopse
 Graças à ciência moderna, todos os recém-nascidos são bombas-relógio genéticas - os homens só vivem até aos vinte e cinco anos e as mulheres até aos vinte. Neste cenário desolador, as raparigas são raptadas e forçadas a casamentos polígamos para que a raça humana não desapareça. Levada pelos Colectores para se casar à força, Rhine Ellery, uma rapariga de dezasseis anos entra num mundo de riqueza e privilégio. Apesar do amor genuíno do marido Linden e da amizade relativa das suas irmãs-esposas, Rhine só pensa numa coisa: fugir, encontrar o irmão gémeo e voltar para casa.

Mas a liberdade não é o único problema. O excêntrico pai de Linden está decidido a encontrar um antídoto para o vírus genético que está prestes a levar-lhe o filho e usa cadáveres nas suas experiências. Com a ajuda de um criado, Gabriel, pelo qual se sente perigosamente atraída, Rhine tenta fugir no limitado tempo que lhe resta.


Opinião 
 Começou por escrever pequenas coisas nos menus infantis dos restaurantes, que guardava na mala da mãe para nunca perder as pequenas histórias que escrevi quando estava entediada. Mais tarde, uma professora entusiasmou-a a pensar numa carreira literária. Estava no quinto ano. Lauren DeStefano sabia que queria escrever, que contar histórias não era um hobbie mas algo para a vida e isso levou a tirar um curso de Escrita Criativa e a terminar o seu primeiro manuscrito completo, que depois de 140 rejeições, foi aceite numa editora e em 2011, o primeiro livro de Lauren era uma realidade.

Raptada surgiu do nada, de uma notícia vista na televisão sobre alterações genéticas, do fascínio da autora pelo pensamento da Natureza poder ser alterada e do que aí poderia advir, da imaginação de uma rapariga curiosa, até se tornar numa das distopias mais faladas do momento. Nomeado para o prémio ALA Teen’s Top Tem Award 2012, foi receptor de várias críticas positivas, incluindo da autora de Floresta de Mãos e Dentes e já foi traduzido para 26 línguas.
Esta não é uma obra-prima, nem me parece que vá causar o caos como outras séries deste género mas é um livro que os fãs das distopias vão saborear se o lerem de mente aberta e sem ânimo leve, pois esta é uma caixinha de surpresas não muito espalhafatosa, antes uma leitura que se entranha e se espalha pela nossa mente, pelo nosso coração, que nos faz reflectir e sentir em grandes medidas. Este livro tem uma escrita simples, todo ele é tal e qual o mundo que autora criou, a própria escrita dela reflecte o que é este novo mundo, do que foi ele construído, quais são os seus alicerces. Parecer-vos-á muitas vezes superficial, antagónico, cruel, e aí está a essência que torna este livro algo muito maior do que eu estava a espera. A história que irão ler, está inscrita no world building, nas personagens, nas descrições, nos próprios sentimentos que a leitura transmite, tudo isto transmite e é sinónimo daquilo que Raptada realmente é.
A ideia da vida acabar quando para nós mal começa, devido à ambição humana de se tornar perfeita, é uma ideia cruel e dolorosa e enquanto o leitor se revolta contra esta ideia, se enfurece contra um destino provindo da nossa superioridade científica, assistirá à aceitação das personagens que a sua vida é curta, que em pleno auge da beleza, rapazes e raparigas murcharão, que crianças serão criadas sozinhas, abandonadas, compradas, que a sua realidade rapidamente terminará e que cedo, muito cedo, se tornam demasiado maturas para encararem este mundo tão superficial, tão belo, tão cruel. Tudo isto é nos transmitido sem grandes arrebatamentos de fúria mas antes como algo que faz parte da realidade das personagens pois elas apenas conhecem este mundo, esta forma de vida e o nosso mundo é um sonho, histórias irreais para serem contadas à noite aos filhos. Assustará por vezes, assistir a crueza desta rotina, à forma como o ser humano é capaz de se adaptar a formas de vida antes impensáveis, como aceita o seu curto destino sem se atrever a acreditar, a ter esperança, conceito este que morreu há tanto tempo que já nem se sabe o que significa.
Através da evolução científica, a autora toca noutros temas como a poligamia, o culto, o tráfico humano, a disparidade entre classes sociais, a liberdade, unindo todos estes pontos de forma a criar uma trama credível, que dentro de um único espaço, se vai desenvolvendo a nossa volta, dando-nos novas perspectivas sobre estes temas, criadas conforme esta história se vai abrindo e alcançando-nos. Tudo nos parecerá falso, artificial, demasiado perfeito, quase como uma casa de bonecas, onde todas são lindas, exóticas e diferentes, quase como dondocas sem nada para fazer sem ser ler, conviver e ir a festas enquanto por dentro exasperam, desejam mais, querem mais.
Ninguém poderá entender este livro sem olhar para as suas personagens, estas quatro raparigas tão diferentes que partilham um destino e um marido. Cada uma delas representa uma visão, uma forma de estar e todas se complementam. São quatro raparigas em fases diferentes da idade, umas mais perto e outras mais longe da morte mas todas a olharem para essa meta como uma bomba-relógio. Por trás das faces de bonecas, escondem-se desejos, lutas, passados, entes queridos, verdades escondidas e mentiras descaradas, todas provêm de situações sociais diferentes e cada uma delas tem uma maneira de conviver com a sua nova vida. Rhyne é uma protagonista e uma narradora à altura, cheia de defeitos, sem a doçura e a sensibilidade mas uma vontade louca de ser mais, de ser feliz pelo tempo que lhe resta. Não é crédula mas no meio de toda a sua dureza, a inocência de quem sempre viveu à parte consegue conquistar-nos, pois ela é uma ponte entre dois extremos que tentará de tudo para não ruir.
Sendo um livro juvenil, também este tem um casal e uma história de amor mas esta é diferente de tudo o que leram no género, primeiro porque é algo de secundário na narrativa e por vezes chega a soar a lago forçado, o que é desculpável por ser o primeiro livro da autora, e segundo porque este é um amor diferente dos outros, inocente, doce, insuspeito, feito de pequenos gestos e atitudes, quase como um namoro à antiga mas no futuro. É um romance que nos faz torcer pelas personagens mas que não vai tirar a nossa atenção do resto do enredo nem monopolizar-nos ao longo da leitura, é mais um acessório necessário ao próximo livro.
Confesso que aguardo o próximo livro com expectativa, quero ver até onde Rhyne irá, se haverá antídoto, como é o resto deste mundo artificial, quero saber mais, pronto. Fiquei curiosa, enternecida, enfurecida. Li o livro rapidamente e senti-me satisfeita no fim da leitura e isso é sempre o que importa. Este pode não ser um livro brilhante mas é um livro que merece ser lido e apreciado, quer pelos fãs de distopias, quer pelos de ficção-científica que não se importem de ler algo mais leve, quer por qualquer um que goste de livros juvenis. 

6*

2 comentários:

  1. Parece ser uma distopia muito interessante, gostei muito da opinião conseguiu despertar-me curiosidade.
    Boas leituras
    CriArte a Ler

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    1. Muito obrigada!! Espero que a ler o livro goste =)

      Boas leituras

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