terça-feira, 30 de outubro de 2012

Aquisições *OUTUBRO*

Este foi um mês de grandes emoções em aquisições. Desde encontrar um dos livros que eu mais queria numa prateleira de livros antigos na livraria da faculdade por pura sorte (ou será que foi o destino que lá me levou nesse dia?), a arranjar um livro que eu tinha adorado e a comprar a sua continuação que saiu há poucos dias, a descobrir uma nova autora que me fascinou, ao lançamento do último volume de uma trilogia da minha autora preferida, entre tantas outras alegrias, este foi, o que se pode chamar, um mês de deixar uma bibliófila radiante de felicidade.

Ao  todo, foram 12 livros, 7 comprados e os restantes em trocas, sendo que um deles é para um trabalho da faculdade (sim já começaram!), e foram, na sua maioria, livros que irão compensar se os próximos dois meses não correrem assim tão bem. Quer dizer, eu faço anos para a semana por isso vou receber livros de certeza mas é melhor fazer sempre as contas por baixo, não vá esta gente esquecer-se!

Agora, depois tanto paleio, vamos mas é ver os meus "bebés", sim?*.*



E Tudo o Vento Levou - vols. 1 e 2, Margaret Mitchell
Estes foram os tais que finalmente! encontrei por acaso (foi o destino, ninguém me diz o contrário!)  e tive de partilhar convosco tanto as capas como as contracapas *.*
 

Desejo Subtil, Lisa Kleypas *Opinião*
Sedução Intensa, Lisa Kleypas


Transformar-se em Maria Antonieta, Juliet Grey
Juliana, Condessa de Stroganoff, José Norton
 

A Cidade dos Deuses Selvagens, Isabel Allende
Seara de Vento, Manuel da Fonseca
 

The Feast of All Saints, Anne Rice
 

A Casa de Gaian, Anne Bishop *Opinião*
O Grande Amor da Minha Vida, Paullina Simons *Opinião*


Força do Desejo, Jess Michaels


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Opinião - A Casa de Gaian

Título Original: The House of Gaian  (#3 Tir Alainn)
Autor: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 448

Sinopse
 O regresso de Anne Bishop para o final desta brilhante e misteriosa nova trilogia.

Começou como uma caça às bruxas, mas o plano do Inquisidor-Mor para eliminar todos os vestígios de poder feminino que há no mundo preveem agora a aniquilação dos barões de Sylvalan que se lhe opõem… e a destruição do berço de toda a magia: a Serra da Mãe. Humanos e feiticeiras formam uma aliança difícil com os Fae para fazerem frente a esse imigo terrível. No entanto, mesmo unidos, não têm força suficiente para resistirem aos exércitos mobilizados pela Inquisição. Procuram por isso o apoio do último aliado ao qual podem recorrer: a Casa de Gaian. As feiticeiras que vivem isoladas na Serra da Mãe têm poder suficiente para criarem um mundo… ou para o destruírem.

O antigo lema das bruxas: «Não fareis o mal», arrisca-se a ser esquecido por força de uma necessidade mais premente: a necessidade de sobreviverem.


Opinião
Antes das Jóias Negras, existiu Tir Allain. Antes dos Sangue, existiram as Filhas da Casa de Gaian. Mas que interessa isso desde que possamos visitar cada um destes mundos, conhecer todas as suas personagens e ler as suas histórias? Seja qual for o mundo obscuro e apaixonante com que Anne Bishop nos presenteie, a verdade é que estaremos perante algo único e mágico que nos ofuscará com o seu brilho e que nunca poderá ser comparado a nada porque nunca lerão nada como as histórias desta senhora da fantasia gótica.

Amante da jardinagem, da música e de histórias densas e românticas, Anne Bishop é uma autora como poucas. Com quinze livros publicados e uma estreia absoluta na fantasia paranormal prestes a chegar em Março de 2013, esta autora viu o seu sucesso crescer devido a uma trilogia que terá marcado todos os que a leram, tenham gostado ou não e, é hoje uma das autoras mais marcantes da fantasia.
Esta é a minha escritora preferida de todos os tempos e eu esperava com uma ansiedade crescente e algum desespero o fim desta trilogia, que tão longe mas tão perto do que eu adoro nesta senhora, me conquistou como tudo o demais que li dela e, que tenho a certeza, nunca será suplantado, leia eu o que ler. Num mundo de luz e sombras, de encanto e maldade, de doçura e morte, dois povos coexistiram até que um inimigo devastador veio desequilibrar tudo o que havia sido construído para o bem, desenterrando lendas antigas e vozes que não mais cairão no esquecimento.
Volume final de uma trilogia onde a magia anda lado a lado com a Natureza, onde a feminilidade é celebrada como um duo de poder e meiguice e onde o terror se pode esconder nas brumas mais escuras, este é o final perfeito para uma história que foi ganhando intensidade até terminar em soberba beleza neste livro.  A Casa de Gaian é, no seu todo, um livro poderoso, onde a escrita lírica e a voz insinuante da autora soa em cada expressão, em cada descrição e momento como algo de sobrenatural, que se insinua e nos absorve como uma tempestade de proporções gigantescas. Recheado de momentos que têm tanto de doce como de doloroso, tanto de violento como de apaixonante, este é mais uma narrativa onde os laços familiares ganham vida, onde os amantes vivem amores transcendentes, onde a amizade é algo mais valoroso que as questões de vida e morte, onde o ódio pode ultrapassar a lealdade às raízes.
Os mitos renascem para uma batalha que irá alterar tudo e todos de uma forma definitiva e para unirem o que se separou há demasiado tempo, criando ligações que nos ultrapassam, contando-nos histórias que nos deixarão tão maravilhados quanto aterrorizados. Numa narrativa onde beleza e grotesco, mais uma vez, caminham lado a lado, tornando esta leitura algo de singular, vamos aprender, sorrir e arrepiar com cada batalha épica, com cada gesto de aceitação e encontro, com toque de compaixão e antagonismo, apreendendo em cada frase, as emoções que emergem das personagens em ondas gigantescas que não nos deixarão largar a leitura por nada neste mundo.
Mais uma vez, as descrições de Bishop são um contraste entre luz e sombras, que tanto marcaram esta trilogia ao longo dos três livros e, mais uma vez, o leitor poderá apreciar os diálogos escritos e entender por entrelinhas o que as personagens emergem entre si, numa acção cheia de  sentimentos profundos que simbolizam o mais fundo de o ser e um entendimento que ultrapassa a razão. Quem conhece a autora, sabe que a dualidade de auras faz parte da sua escrita, escreva ela sobre que mundo for, mas neste é mais palpável, mais inocente e com menos subterfúgios, criando um final assolapado que está cheio de contrariedades, momentos imprevisíveis e chocantes e novas revelações inesperadas que alterarão tudo o que esperariam deste volume final.
Marcante como desde o início, são as personagens. Entre as antigas e as novas que nos chegam neste livro, temos almas tão selvagens quanto puras, que sofrerão por terem de abandonar o seu lema «Nunca fareis o mal» para um bem maior, a existência de tudo o que amam e faz delas, bruxas ou Fae, até mesmo humanos, aquilo que são. Tal como a escrita, também as personagens são um misto de ambiguidades que nos conquistam e nos fazem perceber aquilo que realmente são, aquilo que são capazes, conseguindo que o nosso coração torça a mesma por elas. Acompanhar a forma como as raças interagem entre si, como se começam a conhecer e, finalmente, a compreenderem-se, criando laços entre si tão fortes como as raízes de uma árvore enterradas nas profundezas da terra, é um dos pontos fortes deste livro, marcando o leitor com o entendimento e a percepção de quão diferentes mas tão iguais, todas as estas personagens, que vivem em mundos tão diferentes, com regras tão díspares, são capazes de complementarem de forma perfeita.
O leitor sofrerá com as perdas, irá revoltar-se com a injustiça, torcerá por aqueles que abandonam os medos para viverem algo com que nunca se atreveram a sonhar. Sentirá na pele a compaixão, fervilhará com a raiva contra aqueles que tudo destruem, tudo quebram, deixando um rasto de morte e terror atrás de si. Viver num mundo bishopiano por umas horas, umas quantas páginas, preenche-nos de uma maneira que poucos livros hoje fazem e transportam-nos, não para mundos idílicos, mas para um mundo onde a amizade, a lealdade e o amor são tão verdadeiros quanto o sol nascer ou a chuva cair.
Enquanto fã desta autora, deixar-me levar pelos seus livros é tão fácil quanto respirar e, em cada um deles, eu encanto-me e perco-me, sinto uma ligação com estas personagens como sinto com poucas. Pura e simplesmente, eu vivo dentro da história enquanto a leio. Como final, este livro é perfeito, pois conjuga em si tudo o que de melhor esta trilogia tem, culminando com toda a mestria com que a autora já nos habitou.
A quem já leu os outros dois livros, prepara-se para um final que vos deixará o coração a acelerar. Quem não leu, vão a loja mais próxima, comprem esta trilogia ou outra mas não percam a oportunidade de ler Bishop uma vez, pelo menos, na vida.


 7*

As minhas opiniões da trilogia:
Os Pilares do Mundo
Luz e Sombras 

domingo, 28 de outubro de 2012

Opinião - O Tempo dos Milagres

Título Original: The Age of Miracles
Autor: Karen Thompson Walker
Editora: Civilização Editora
Número de Páginas: 256

Sinopse
 Nunca é aquilo que receamos que acaba por acontecer. As verdadeiras catástrofes são sempre diferentes – inimagináveis, inesperadas, desconhecidas… E se o nosso dia de 24 horas se tornasse mais longo, primeiro em minutos, depois em horas, até o dia se tornar noite e a noite se tornar dia? Que efeito teria este abrandamento no mundo? Nas aves do céu, nas baleias do mar, nos astronautas do espaço e numa rapariga de onze anos, a braços com as mudanças emocionais da sua própria vida? Uma manhã, Julia e os pais acordam na sua casa nos subúrbios da Califórnia e descobrem, juntamente com o resto do mundo, que o movimento de rotação da Terra está a abrandar visivelmente. A enormidade deste facto está quase para além da compreensão. E, no entanto, ainda que o mundo esteja, na realidade, a aproximar-se do fim, como afirmam alguns, a vida do dia a dia tem de continuar. Julia, que enfrenta a solidão e o desespero de uma adolescência difícil, testemunha o impacto deste fenómeno no mundo, na comunidade, em si própria e na sua família.

Opinião 
 Nascida e criada em San Diego, Califórnia, Karen Thompson Walker estudou Inglês e Escrita Criativa na UCLA e foi nesta instituição que começou a dedicar-se ao jornalismo, actividade que continuou mais tarde até se mudar para Nova Iorque, onde trabalhou como editora, tendo sido o rebuliço dos transportes desta cidade que a permitiu escrever este livro a caminho do trabalho mas que não a impediu de o situar na sua paisagem natal do outro lado do país.

O Tempo dos Milagres é um livro de tamanho pequeno mas que contém em si mensagens de grande importância, relatadas numa escrita simples e fluída que promove uma leitura rápida de grande entendimento. Emprestado e recomendado por uma amiga, este livro é dos primeiros que leio sobre a temática do fim do mundo que tanto tem assolado as livrarias, mas rapidamente deu para perceber que, no seu todo, este livro está muito longe de todos os outros. Não apenas o fim do mundo faz parte dos temas do livro como o fim da infância, a importância da família, o peso da religião ou o comportamento das crianças em sociedade, o que torna esta leitura, apesar de tão curta, uma leitura que dá que pensar, que nos põe a colocar questões que nunca antes tínhamos pensado.
O movimento giratório da Terra à volta do Sol está a abrandar, colocando em causa todas as formas de vida e verdades indiscutíveis da vivência do ser humano. Os dias aumentam, o tempo altera-se e as pessoas têm de se adaptar a uma outra forma de vida mas, mesmo com o mundo a acabar, os sentimentos e vivências inerentes ao ser humano não desaparecem e mesmo num dia diferente e num mundo diferente, o amor continua a acontecer, a amizade pode perder-se e as certezas podem cair. Ao olharmos para a realidade que a autora nos apresenta, não é difícil imaginar que isto pudesse realmente acontecer e, é talvez, mais real que o mundo acabe em segundos do que com catástrofes de tamanhos inimagináveis mas, não deixa de ser assustador, que esta visão de fim do mundo acarrete a continuação de um dia-a-dia que, com alterações psicológicas, uma revolta interior e uma esperança que se pode manter mesmo com os cenários mais devastadores, vai marcar o ser humano de formas inesperadas enquanto a sua vida continua.
Mais do que um relato de alterações naturais, este livro vai pôr em causa tudo o que faz parte da nossa vida pois, mesmo que as marés se alterem, os dias durem horas intermináveis sem que possamos voltar a sentir o sol a aquecer-nos a pele, que as noites sejam cada vez mais escuras, que tudo o que é verde morra, a verdade é que as maiores e mais importantes transformações dão-se dentro de nós. Olho para este livro como uma dicotomia entre vida e morte, luz e escuro, entre físico e psicológico, onde o mundo vai esmorecendo enquanto uma menina floresce num espaço árido sem raízes que a agarrem. A escolha de temas da autora mostra uma clara inteligência e compreensão, ao apresentar-nos duas realidades e ao contar com uma narradora que se encontra entre a infância e a adolescência, que vê o seu mundo exterior mudar enquanto o seu interior se revolta para uma nova realidade.
Para além das mudanças climatéricas e da adaptação dos homens a uma nova realidade social, assistimos ainda ao crescimento de Julia e a forma como a sua família reage a este acontecimento catastrófico. Sendo uma menina de onze anos, está prestes a enfrentar a difícil passagem da infância para a adolescência, o primeiro amor, a perda das amizades e a constatar que nem tudo o que parece é nem os finais são sempre felizes. É pelas suas palavras que encarámos as suas dúvidas, o seu crescimento, as suas alegrias e tristezas, a forma como vê as diferenças que estão a assolá-la e ao mundo. Julia tem de enfrentar a quebra da sua família, a falsidade dos jovens da sua idade, a pureza de um carinho que nasce dos pequenos gestos e ao acompanhá-la nesta fase da sua vida compreendemos que a vida nunca para, por pior que estejamos, por mais que tudo a nossa volta esteja a ruir.
Como primeiro livro da autora, O Tempo dos Milagres é uma leitura envolvente, mesmo com as falhas de um primeiro manuscrito, onde o final é previsível e pouco satisfatório, onde esperávamos muito mais e tudo acaba por passar demasiado depressa em conclusões pouco concretas. Depois de duzentas páginas intensas, seria de desejar um final muito melhor mas, que ao não acontecer, mata um pouco do sentimento que nos assola durante a leitura.
Numa dualidade única escrita com uma sensibilidade e aceitação que faz com o leitor sorria com esta criança e estremeça com os factos, este livro é uma aposta para quem aprecia o tipo de distopias simples, narrativas intensas em poucas palavras e leituras que marquem o pensamento para mais tarde recordar.
Um livro que me deu umas boas horas de leitura e muitos apreciarão na sua beleza crua e inocente.

5*

sábado, 27 de outubro de 2012

Opinião - O Messias de Duna

Título Original: Dune Messiah (#2 As Crónicas de Duna)
Autor: Frank Herbert
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 283

Sinopse
 Doze anos depois dos eventos descritos em Duna, Paul Atreides governa como Imperador do Universo, tendo dado início a uma Jihad galáctica ao aceitar o papel de Mahdi do povo Fremen. Paul é o mais poderoso Imperador de sempre, mas é incapaz de travar a sangrenta Jihad que já ceifou as vidas de milhões de pessoas e destruiu mundos.

Com a sua visão presciente, Paul vê a Jihad a alastrar-se, mas não pode travá-la face às terríveis alternativas que se podem seguir. Motivado por este conhecimento, decide seguir um plano complexo e perigoso que pode evitar a extinção da Humanidade, uma visão que o atormenta dia e noite.

O que Paul desconhece é que muitos velhos inimigos se reúnem à sombra do Império, preparando uma conspiração para derrubar a Casa Atreides do trono. Mais do que um mero assassinato, preparam-se para fragilizar o Kwisatz-Haderach… Conseguirá Paul estar à altura dos desafios do seu papel como Imperador e evitar os perigos que o rodeiam?


Opinião


Depois de rejeitado por vinte editoras, incluindo um editor que admitiu pensar que estava a cometer o erro da década, Frank Herbert conseguiu finalmente em 1965, editar Duna em dois volumes na revista Analog e nesse ano consegue o Nebula e, no ano seguinte, o Hugo. Primeiro livro de Ficção- Científica ecológico, Duna foi um sucesso no género e marcou uma época e um pensamento, deixando, ainda hoje, incrédulos, aqueles que se atrevem a ler este marco da literatura.
O escritor ainda escreveu mais cinco livros da série, sendo o segundo este O Messias de Duna, e o quarto, As Herdeiras de Duna, foi dedicado a sua esposa que faleceu de cancro em 1984. Já o quinto, Os Hereges de Duna foi lançado no mesmo fatídico ano em que também estreou sobre a realização de David Lynch, o filme da série com a participação de Sting. Frank viria a falecer em 1986, deixando uma obra memorável.
Ler Duna foi como descobrir algo novo, algo que estava debaixo dos meus olhos sem o ver. Uma leitura cheia de significados e simbolismos, uma escrita rica e complexa que converteu esta leiga ao género de que fugia a sete pés, sem saber o que andava a perder. Meses depois, em vez do calhamaço que me conquistou, leio esta segunda parte, com um tamanho mais simpático mas menos satisfatório e uma capa sem o magnetismo da primeira.
Depois de um livro intenso onde um mundo novo foi desbravado pelos leitores com um entusiasmo crescente, onde um jovem que vinga o seu pai e a sua Casa, ascende ao poder terreno como Imperador e ao espiritual enquanto Messias, num panorama que, afinal, não está assim tão longe do passado e onde apenas a geografia e os meios são outros, O Messias de Duna, é um livro mais introspectivo, mais político e filosófico do que intenso, mais um fim que o auge.
Este é um mundo diferente do que conhecemos no primeiro volume, há uma consciência do bem e do mal, do passado e do futuro, da perda e da vitória, mas essa consciência não abrange a todos, nem amigos, nem inimigos, marcando o livro não com a violência física mas psicológica, onde cada palavra é uma arma e onde por trás de cada membro se pode encontrar ódio numa máscara de pacificação. Entre o fervorismo religioso, as intrigas palacianas e a quebra de honra, Paul é o único que tem consciência dos ventos de mudança que agitam o seu Império, apercebendo-se que os seus alicerces estão prestes a desabar graças as conspirações e ambições que os seus inimigos almejam.
Num ambiente de revolta silenciosa e traição, de lealdade ferrada e do medo de represálias, será difícil aos fãs reconhecer neste livro a força esmagadora do primeiro mas ela está lá, escondida, silenciosa, etérea e subjectiva, em cada diálogo de esperança e derrota, em cada visão terrorífica de Paul e Alia, em cada gesto de coragem ou de falsidade. Um volume mais religioso, onde as consequências da posição e hereditariedade de Paul e Alia, seres humanos superiores vistos como deuses, O Messias de Duna mostra à lupa, as suas fraquezas e temores, numa visão grotesca da qual só eles têm noção da dimensão. Numa narrativa, não de ascensão e glória mas de decadência e mudança, encontraremos facilmente uma mentira, um desejo, uma forma de destruição, o que torna este livro uma explosão silenciosa, em que cada acto pode terminar pode terminar em sofrimento, não importa de quem.
Para este ambiente de intriga, política e hierarquias, muito contribuiu o ambiente da corte deste poderoso Império, onde os hábitos estão muito longe do que foram. Enquanto alguns se mantêm fiéis a forma de vida dos Fremen, outros vivem entre os vícios e a opulência, muito longe do espírito de sacrifício que é substituído pelo egoísmo e auto-preservação. A fé tornou-se algo impróprio e destrutivo, a sociedade é representada de uma forma depressiva, com vergonha daquilo em que se transformou, estando longe da elevação espiritual que sentimos no primeiro volume.
A mudança que se sente na narrativa sente-se também nas personagens, principalmente em Paul, em quem o peso dos erros cometidos vai cair, transformando-o em algo ainda mais transcendente e longe da humanidade, chegando ao ponto de nem Alia conseguir ver até onde vai a visão do irmão. Muad’Dib é a força deste mundo, tendo ele o poder absoluto e o único com a noção da causa-consequência dos seus actos. O herdeiro Atrides encerra nele o desejo de voltar atrás e de alterar tudo e, também, a dor da certeza que isso não é possível e terá de enfrentar as maiores derrotas para conseguir alcançar um novo meio de transformação. A forma como Herbert concentra neste personagem, o divino e o humano, o déspota e o libertador,  a imagem do messias em paz ou em terror, é o que torna Paul, uma das personagens de maior ambiguidade e capacidade de sempre.
Mesmo com um tamanho mais pequeno e uma narrativa mais entranhada, O Messias de Duna tem o poder do autor em cada palavra e, em nada falha ao primeiro livro, conseguindo em menos palavras e actos atingir uma perfeição de acção e mensagens não escritas que Duna não consegue pois escrever sobre a vitória é fácil, conseguir abranger a derrota e o errado é muito mais difícil e o autor consegue-o brilhantemente em cada momento mais doloroso.
 Mais uma vez o mundo de Arrakis enredou-me e mais uma vez me mostrou que a Ficção-Científica não é um género a ser esquecido.

7*

As minhas opiniões da série:
Duna

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Picture Puzzle #28





Regras:


  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens representativas das palavras dos títulos (uma imagem por palavra, ignorando os "e, o(s), a(s), de, etc.);
  • Fazer o post e convidar o pessoal a tentar adivinhar o livro;
  • Se estiver a ser difícil podem ser fornecidas pistas mas está ao critério do administrador do blogue;
  • As imagens não têm de literalmente representar o título
Podem consultar a rubrica nos seguintes blogues: Bookeater/Booklover
Puzzle #1

Pistas: título em inglês; romance; editado este ano em Portugal




Puzzle #2

 Pistas: título em inglês



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Teaser Tuesday (39)

Regras:

  • Pegar no livro que estamos a ler
  • Abrir numa página à sorte
  • Partilhar duas frases dessa página. Não incluir spoilers!
  • Partilhar o título e o autor do livro



 "Olhou fixamente para as escarpas a sul, que protegiam as terras do norte dos ventos coriolis e questionou-se porque motivo a sua própria paz de espírito não conseguia encontrar uma protecção daquelas."
p. 71, O Messias de Duna, Frank Herbert


Rubrica original do blog Should Be Reading

domingo, 21 de outubro de 2012

Opinião - O Grande Amor da Minha Vida

Título Original: The Bronze Horseman (#1 Tatiana e Alexander)
Autor: Paullina Simons
Editora: ASA
Número de Páginas: 688

Sinopse
 Tatiana vive com a família em Leninegrado. A Rússia foi flagelada pela revolução, mas a cidade mais cosmopolita do país guarda ainda memórias do glamour do passado. Bela e vibrante, Tatiana não deixa que o dramatismo que a rodeia a impeça de sonhar com um futuro melhor. Mas este será o pior e o melhor dia da sua vida. O dia assombroso em que conhece aquele que será o seu grande e único amor. Ameaçados pela implacável máquina de guerra nazi e pelo desumano regime soviético, Tatiana e Alexander são arremessados para o vórtice da História, naquele que será o ponto de viragem do século XX e que moldará o mundo moderno.

Opinião 
 Paullina Simons nasceu em Leninegrado em 1963, em plena União Soviética. Quando tinha 10 anos, mudou-se com a família para os E.U.A e assim que aprendeu inglês começou a dar forma ao seu sonho de ser escritora. Graduou-se em Ciência Política na Universidade do Kansas, trabalhou como jornalista financeira e tradutora e, foi com a publicação do seu primeiro romance Tully que finalmente alcançou o seu sonho de infância.

Entre 8 romances, que estiveram muitas vezes nas listas de bestsellers de vários países como Nova Zelândia e Austrália, e um livro de cozinha baseado na sua trilogia mais conhecida, Tatiana e Alexander. Foi com esta trilogia que Paullina alcançou um êxito imenso e onde a autora pode transmitir a influência das suas origens, as histórias que ouviu dos avós, sobreviventes da época mais pesada do seu país natal e a fuga de um mundo opressor para viver um sonho. Traduzido em mais de 30 países, o primeiro volume da trilogia chega agora a Portugal para levar os seus leitores para o Leste de uma Europa onde o brilho do passado se desfaz nas garras da sobrevivência.
Ao olharmos para o tamanho de meter respeito de O Grande Amor da Minha Vida não imaginámos a sensação avassaladora que nos irá tomar durante a sua leitura, não nos apercebemos que ele está longe de ser o típico romance mas uma jornada de coragem, sofrimento, sacrifício e amor capaz de nos transportar para o frio e desolação de uma Rússia prestes a cair do seu pedestal inabalável para a negritude em que a Europa está submersa. Através da sua escrita intensa e sensível, Paullina proporciona-nos um contraste entre o frio e o calor, entre o dia e a noite, a paz e a guerra. Tanto capaz de nos descrever os acontecimentos mais cruéis como os mais doces, a autora permite-nos sonhar e acreditar num momento e retira-nos toda a esperança no outro para depois nos relembrar que o ser humano tem uma força inesperada que desconhece.
Com um início arrebatador este livro agarrou-me desde a primeira página até a última, num relato onde as emoções estão a flor da pele, onde sentimos cada perda e cada sorriso de uma forma tão absoluta que parece que estamos dentro do livro lado a lado com as personagens. A história de amor de Tatiana e Alexander está recheada de momentos intensos, onde sentimos cada palavra, cada gesto como se nos fossem dirigidas. Sentimo-nos assolados pelos seus sentimentos, pela forma como se amam, como lutam um pelo outro, como são capazes de se afastarem sem olharem para trás para protegerem a pessoa que mais amam. Toda a beleza e sentimento desta relação irão acompanhar-nos em cada página em que acreditámos e sofremos com eles, naquela que é, provavelmente, uma das maiores histórias de amor que já li. Não há palavras para descrever a entrega e o sacrifício que marcam esta união do destino, a forma como este amor cresce como uma flor no meio de tanta atrocidade e dor arrepia-nos e transcende-nos de uma forma tão soberba que é difícil explicar tudo aquilo que passámos ao longo desta leitura.
Mas mais do que um romance, este livro é um relato histórico do dia-a-dia de um povo em guerra que se achava protegido, o mais forte de todos, inquebrável. Acompanhar cada acontecimento do bloqueio de Leninegrado leva qualquer leitor ao sentimento de impotência, às lágrimas de frustração e sofrimento e, depois, a consternação e a aceitação das maiores atrocidades que se podem imaginar. O rigor histórico com que autora marcou esta narrativa deu-lhe vida, sobriedade, um espírito único que torna este livro inesquecível. Muitos dos momentos que acompanhámos durante a leitura deste livro nunca mais nos abandonarão pois é impossível esquecer as tantas vítimas desta guerra. Aquilo que senti ao longo desta leitura deixou-me assoberbada, revoltada, desejosa de evitar toda a dor, de estar ao lado das personagens a dizer-lhes para não desistirem, mesmo que não fosse preciso.
Se esta história tem um poder inigualável, as suas personagens são inesquecíveis. Dotadas de uma beleza tão crua quanto as paisagens brancas da Rússia, todas elas são exemplos perfeitos de um povo cuja força era maior do que alguma vez se podia crer. Cheios de força e de um espírito de entrega, é bastante fácil apaixonarmo-nos pelo casal Tatiana e Alexander. Ela é alma benfeitora que dentro de um corpo fraco enfrentará todas as adversidades, será capaz de tudo pelos que mais ama, será protagonista dos momentos mais sentimentais deste livro mesmo sendo apenas uma ingénua menina de 17 anos, ela é a prova que o coração tem forças que até o próprio desconhece. Já Alexander é um misto do poder masculino com a sensibilidade e fará os corações disparar em cada momento pela sua entrega, pela sua honra e confiança, pela sua comiseração e por ser capaz de tudo por Tatiana. As restantes personagens são também elas cheias de humanidade, desde os maiores defeitos às qualidades, desde as suas fraquezas aos seus desejos e irão estar tão presentes nesta leitura como o casal protagonista.
As relações entre as várias personagens protagonizam momentos de uma soberba qualidade onde o ser humano se ultrapassa, podendo tanto fazer-nos odiar como chorar de pena ou, então, sorrir que nem tontos, colocar expressões de escárnio nos nossos rostos ou apertar-nos o coração de tanta dor. Esta é uma leitura onde se vive, se cresce e aprende, onde cada momento deixará uma marca em nós.
Um dos livros mais belos do ano, convido todos os leitores a ganharem coragem para enfrentarem as 688 páginas deste livro pois nunca se irão arrepender de ler cada uma delas. Preparem-se para uma das viagens mais belas e românticas da vossa vida porque este livro é muito mais do que podem imaginar.

7*