quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Opinião - Transformar-se em Maria Antonieta

Título Original: Becoming Marie Antoinette (#1 Maria Antonieta)
Autor: Juliet Grey
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 351

Sinopse
 Criada pela formidável imperatriz da Áustria, com numerosos irmãos e irmãs, Maria Antónia, aos dez anos, já sabia que a sua existência idílica seria, um dia, sacrificada às ambições políticas da mãe, mas nunca lhe passou pela cabeça que a sua imolação fosse tão prematura. Antes de passar dos piqueniques em Viena, na companhia das irmãs, para o brilho, o fascínio e as bisbilhotices de Versalhes, Antónia tem de mudar por completo para ser aceite como Delfina de França e mulher do estranho adolescente que um dia será Luís XVI. Mas possui ela o engenho e influência necessários para se tornar rainha.

Opinião
 Apaixonada pela história das famílias reais europeias, Juliet Grey pesquisou tudo o que havia para pesquisar sobre as uniões, as intrigas e os segredos dos reis e rainhas que durante séculos, em salas fechadas ou salões de baile, decidiram o destino de vários povos e nações por actos de dedicação ou puro egoísmo mas, houve uma rainha que suscitou na escritora uma admiração que a levaria a escrever um livro sobre a sua vida. Desde princesa mimada a rainha guilhotinada, do Império mais poderoso da Europa para um reino em decadência, símbolo do poder antigo e vítima do novo espírito revolucionário, Maria Antonieta foi filha, esposa e mãe nas duas casas reais que dividiram o mundo antigo com o seu poder, os Habsburgo e os Bourbon.

Por mais que tenha descortinado a vida desta mulher em livros, filmes e aulas, tenha visto e revisto cada pormenor da sua época e da sua vida, não consigo deixar de me sentir fascinada com esta personalidade que, para o bem ou para o mal, se imortalizou na sua morte como um símbolo de um novo mundo, de um novo pensamento e de uma nova abordagem. Escandalosa, doce e apaixonada, Maria Antonieta foi recordada para a posterioridade como a causa de uma decadência que há muito corrompia a França, como culpada pelos crimes de opulência que toda uma corte cometia, como a austríaca cheia de moral e ironia que não conseguiu fazer com que um rei fraco se tornasse digno do seu trono. De menina a mulher, de arquiduquesa a delfina e, por fim, rainha, esta é a história da difamada e famosa Maria Antonieta, esposa de Luís XVI.
Através de uma escrita divertida, detalhada e cheia de brilho, Grey apresenta-nos uma menina de dez anos que será responsável pela união das duas casas reais mais poderosas da Europa, desde que é prometida ao Delfim de França até se tornar rainha. Da rigidez da corte imperial austríaca até à ostensividade da corte francesa, a autora leva-nos numa viagem decadente, brilhante e, muitas vezes, opressiva pela vida desta mulher que subjugada pela imponência da mãe e assustada com o seu destino delicado, viveu sempre com a certeza que não era perfeita, que tinha demasiados defeitos mas que teria de se superar para demonstrar a todos que era capaz de realizar os planos de dois monarcas e os desejos de duas nações.
Por entre pormenores da infância de Maria Antonieta, vamos conhecendo a sua família, a sua cultura e educação e quem era antes de se tornar rainha. Sem esquecer todos os que fizeram parte da criação e aperfeiçoamento da futura delfina, a autora delicia-nos com o rigor com que nos descreve a corte de Maria Teresa e a própria pessoa desta mulher que com mão de ferro governou um Império, teve dezasseis filhos, viveu múltiplas guerras e casou por amor, as personalidades dos irmãos mais chegados a Antonieta, as  nuances por trás de cada tratado, cada exigência e desafio que significava ser princesa. Na rigidez e moralidade desta corte, conhecemos as diabruras da arquiduquesa, os seus medos e anseios, vemo-la tornar-se uma jovem desafiante, doce e encantadora que teme o seu destino, espera honrar a mãe com todo o seu ser e caí no esplendor daqueles que rodeiam o seu futuro marido.
O contraste entre ambas as cortes vai surpreender os leitores e a autora consegue transmitir de uma forma brilhante, as diferenças existentes na pessoa de Maria Antonieta, que longe do controlo da família, vai tentar aprender a viver numa nova corte que, longe da simplicidade do seu berço, a vai ofuscar e tentar de todas as formas. Intriguista, sumptuosa e luxuosa, a corte de Luís XV vai ser o maior desafio da delfina e cada queda dada por uma jovem inexperiente, insegura e longe do lar que sempre conheceu, vai ensiná-la que por baixo do brilho existe decadência, por trás de um sorriso existe uma mentira e que em cada canto uma reputação pode ser destruída por uma palavra.
Assistir ao crescimento desta jovem vai ser pautado por muitos momentos de diversão, de pena e admiração, desde casa até Versalhes, Maria Antonieta conquista-nos com a sua ingenuidade, com as suas tiradas irónicas e jovens, pela forma como desafia as convenções mas não deixa de saber o que se espera dela. Caracterizada de uma forma soberba pela autora, ela cresce perante os nossos olhos, estrebucha e adapta-se, passa de menina tonta a mulher supérflua, ri-se nas adversidades e nunca desiste até mostrar que é muito mais do que todos pensam.
Cada personagem histórica é nos dada pela autora de uma forma humana, única e refrescante, longe do pedestal em que a História os colocou. Degradantes, venenosos, tontos, invejosos, toda a corte francesa nos vai deixar perplexos, irritar-nos e divertir-nos por entre momentos de uma simplicidade e detalhe que vão agarrar o leitor. Desde o inseguro Luís Augusto à berrante Du Barry, passando pela rígida Maria Teresa até ao conquistador Luís XV, Juliet dá-nos a História pela sua perspectiva, ridiculariza-os, humaniza-os, torna-os mais compreensíveis aos nossos olhos, descreve-nos a beleza e decadência de Versalhes, os rituais intermináveis, as intrigas e segredos, os vestidos e penteados, o dia-a-dia da corte mais invejada e admirada da Europa, numa visão que está longe da seriedade dos temas sérios mas que não deixa de ser realista.
O primeiro livro de uma nova trilogia, Transformar-se em Maria Antonieta é um livro cheio de brilho, com muita ostentação, um espelho da época e da mulher, que vai levar até os que não gostam de História a pegar neste livro e devorá-lo.


6*

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Opinião - A Condessa

Título Original: The Countess: A Novel
Autor: Rebecca Johns
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 336

Sinopse 
 A bela condessa Erzsébet Báthory nasceu num berço de ouro da aristocracia húngara. Nada faria prever que acabaria os seus dias encarcerada na torre do seu próprio castelo. O seu crime: os macabros assassínios de dezenas de criadas, na sua maioria jovens raparigas torturadas até à morte por desagradarem à sua impiedosa senhora.
Pouco antes de ser isolada para sempre, Erzsébet conta a apaixonante história da sua vida. Ela foi capaz dos mais cruéis actos de tortura mas também do mais apaixonado e intenso amor. Foi mãe, amante, companheira… uma mulher que teve o mundo a seus pés e se transformou num monstro.
Os seus opositores retrataram-na como uma bruxa sanguinária, um retrato que fez dela a mulher mais odiada da História. Erzsébet inspirou Drácula, inscreveu-se na literatura clássica e contemporânea, deu azo a filmes, séries de TV e até jogos de computador.


Opinião 
 Professora de Escrita Criativa, Rebecca Jonhs nasceu no Illinois e licenciou-se em Jornalismo e Inglês. Escreve artigos em várias revistas, desde as dedicadas à literatura, publicações noticiarias, revistas universitárias até às comerciais Cosmopolitan e Seventeen. A Condessa é o seu segundo livro, um romance histórico que irá deliciar os fãs de Drácula, os desejosos de visitar a Europa do Leste, os que adoram histórias sobre crimes ou simplesmente os amantes de História.

Bram Stocker criou para o mundo moderno uma personagem fascinante, terrorífica, assustadora e imortal que, ainda hoje, inspira muitos autores e realizadores devido ao fascínio e horror que ele exerce no público, mais crédulo ou não. Falo-vos, claro, de Drácula, o vampiro todo-poderoso que renunciou a Deus e practicou os actos mais horrendos que se possa imaginar e que continua a mexer com o nosso imaginário. O que poucos sabem, é a que a personalização do terror na cultura popular se baseou numa mulher poderosa, bela e inteligente que foi a primeira assassina em série da História, contemporânea de Elizabeth I, sua homónima e que simbolizou o poder da aristocracia húngara e o medo na sua própria casa. Erzsébet Báthory, descendente das famílias mais poderosas do Sacro Império Romano-Germânico, foi uma mãe dedicada, uma amante apaixonada e uma senhora cruel, capaz de assassinar sem piedade dezenas de jovens que estavam ao seu serviço e sobre a sua protecção.
Rebecca Johns dá vida a esta personagem numa narrativa que exala crueldade, amor e pena, onde os crimes de Erzsébet nos são contados da sua perspectiva, tal como as suas perdas, amores e conquistas, num cenário de encanto e beleza gótica, por entre salões de baile, quartos frios e caves escondidas. A autora consegue de uma forma peculiar e sensacional transmitir-nos cada momento da vida da Condessa, provocando no leitor um conjunto de sensações díspares que vão desde a pena à admiração, do terror ao ódio, da compreensão ao desprezo, demonstrando o seu imenso talento com uma narrativa poderosa, intensa e tão bela quanto horrenda, que vai prender-nos a cada palavra como um feitiço.
Ao longo da leitura dei por mim a desejar que houvesse uma explicação plausível para os crimes desta mulher, que ela fosse feliz, que cada esforço para honrar a sua família fosse recompensado e, muitas vezes, justifiquei os seus actos, entendia-a, chorei por ela, uma mulher brilhante culpada por ambicionar a perfeição e desejosa de satisfazer os que amava. Tal é a força dos sentimentos provocados pela autora, o seu talento para contar histórias que, apesar de nos apresentar a frieza e crueldade da protagonista num realto cru e sincero, o leitor não deixa de se sentir fascinado pelo poder de sedução da Condessa.
A protagonista é nos apresentada de forma a atacar os nossos sentidos, a mexer com os nossos pensamentos e coloca a descoberto o mal que pode estar embrenhado no fundo da alma humana. Dona de uma beleza fria e de uma personalidade tão profunda que rivaliza com a da terra que a viu nascer, Erzsébet é o resultado de uma educação privilegiada, de uma linhagem antiga e de um poder ancestral, sendo uma das personalidades mais importantes do seu tempo. Se pode confundir o facto de uma mulher assim ter tomado atitudes tão cruéis, ao ler este livro pode-se entender como alguém de uma superioridade inata pode descer à mais animalesca das acções e como surgiu o destorcimento da mente da Condessa. Caracterizada de uma forma humana e complexa, a nossa protagonista é brilhantemente recriada neste livro, onde mais do que uma assassina, é uma mulher, uma filha, uma irmã, uma mãe, capaz de comandar um salão de baile com a sua graça enquanto a fúria lhe fervilha no interior. Magnetizante, controla-nos ao longo do livro com o seu charme e quase que podemos sentir o seu doce sorriso enquanto o seu olhar nos arrepia.
Num ambiente de luxo, ostentação e mistério, as personagens exalam o mesmo espírito enfeitiçante do mundo em que vivem e encaixam nas descrições desta Europa Oriental, tantas vezes esquecida. A autora cria personagens fortes, profundas e misteriosas e cada uma delas representa um papel nesta peça macabra, seja como testemunhas, catalisadoras ou vítimas. A recriação soberba deste mundo pela autora merece uma atenção especial pelos pormenores que nos são dados, quer sociais, religiosos ou políticos, e que se enquadram na perfeição com o ambiente negro da história, com os adornos góticos e as mudanças espirituais que começam a entranhar-se vindas do Ocidente.
Superando as minhas expectativas em larga escala, A Condessa é um livro brilhante que deve ser lido por fãs de Stocker, História ou personalidades únicas ou por aqueles que tenham coragem suficiente para lerem esta história e conhecerem uma nova definição do Mal. Uma narrativa que exala mistério, crueldade e beleza e que vai prender a vossa respiração, assolar a vossa mente e atiçar a curiosidade até lerem as últimas palavras.

7*

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Opinião - Nunca Me Esqueças

Título Original: Remember Me
Autor: Lesley Pearse
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 432

Sinopse
 Até onde iria por amor?

Num dia…
Com um gesto apenas…
A vida de Mary mudou para sempre.

Naquele que seria o dia mais decisivo da sua vida, Mary – filha de humildes pescadores da Cornualha – traçou o seu destino ao roubar um chapéu. O seu castigo: a forca.
A sua única alternativa: recomeçar a vida no outro lado do mundo.
Dividida entre o sonho de começar de novo e o terror de não sobreviver a tão dura viagem, Mary ruma à Austrália, à época uma colónia de condenados. O novo continente revela-se um enorme desafio onde tudo é desconhecido… como desconhecida é a assombrosa sensação de encontrar o grande amor da sua vida. Apaixonada, Mary vai bater-se pelos seus sonhos sem reservas ou hesitações. E a sua luta ficará para sempre inscrita na História.

Inspirada por uma excepcional história verídica, Lesley Pearse – a rainha do romance inglês – apresenta-nos Mary Broad e, com ela, faz-nos embarcar numa montanha-russa de emoções únicas e inesquecíveis.


Opinião


Uma das escritoras inglesas mais amadas, Lesley Pearse tem fãs por todo o mundo e os seus livros já venderam mais de dois milhões de cópias. Sejam romances históricos, policiais ou romances contemporâneos, todos eles marcam os seus leitores pela força das suas personagens e pela forma como a autora consegue transmitir um misto de sensações em poucas palavras, sensações que ela própria já sentiu, uma vez que os seus livros se baseiam muitas vezes na sua própria experiência de vida, na sua auto-descoberta e luta por um lugar no mundo. Dramáticos pois Lesley nunca escolhe um caminho fácil para as suas personagens mas sem dúvida, também histórias comoventes onde a esperança nunca morre. Este livro é um romance histórico que aborda a colonização da Austrália no século XVIII e foi o primeiro livro da autora publicado em terras lusas no ano de 2008.
Baseado numa história verídica, Nunca Me Esqueças segue a linha e o estilo a que Pearse já nos habitou, uma escrita crua, muitas vezes trágica mas sempre forte e enternecedora, capaz de criar momentos de cortar a respiração, de provocar doces sorrisos ou lágrimas de sofrimento. Depois de ter lido Segue o Coração da mesma autora, nunca pensei que ela conseguisse, mais uma vez, deixar-me pregada à leitura num misto de sensações poderosas capazes de subjugar o leitor mas, também neste livro, me senti arrebatada pelas palavras de Lesley. Sendo uma história real que marcou o seu tempo, é sempre difícil realizar uma união coerente entre ficção e realidade mas a autora consegue-o de uma forma perfeita e coesa, e apesar da sua simpatia pela protagonista, não hesita em momento algum, em ser o mais verdadeira possível, mesmo que certas cenas possam chocar o leitor, apresenta os factos com uma mestria excepcional e consegue, através dos momentos mais ficcionais conquistar a nossa admiração por Mary Broad.
Confesso que não conhecia a história desta fascinante personalidade, nem conhecia muitos detalhes sobre a colonização australiana e, talvez por isso, me tenha sentido tão fascinada com esta história e com uma vontade enorme de estudar melhor o tema que a autora retrata neste livro. Do pouco que sei, acho que o livro está fiel em periodização histórica e pormenores de época pois quantos relatos atrozes, tão parecidos a este, nos chegaram até hoje e nos surpreenderam pela mesma falta de humanidade, sede de poder e condições miseráveis? Em cada descrição, seja da viagem, da chegada ouda luta pela sobrevivência, o leitor vai-se arrepiar, fechar os olhos e sentir, senão ódio, pelo menos um desprezo profundo pelas condições sociais que resultam em tais actos de desespero e que levavam a que só o os mais fortes ou os bafejados pela sorte persistissem. Atrevo-me a dizer que esta leitura levará a que muitos pensem nas condições em que as várias colonizações foram feitas, na coragem dos homens, e não só, que partiam para o desconhecido e incendiará um orgulho nestas gentes que por si, obrigadas ou por vontade própria, construíram do nada, muitas vezes sem apoios, verdadeiras nações.
Quanto à caracterização das personagens é em Mary Broad que se centra toda a história e à volta da qual todas as personagens giram. O leitor terá muitas vezes a sensação que Mary é perfeita, um exemplo da sociedade, um modelo a seguir, uma vítima dos seus crimes e, tanta exaltação, da personagem tanto nos pode fazer admirá-la como a acharmos que a autora exagera nas qualidades da protagonista, o que pode enfadar o leitor durante a leitura. Na minha perspectiva, Lesley admira Mary e considera-a uma heroína, idealizando-a à imagem da sua protagonista típica, uma mulher de coragem, inteligente, apaixonada e práctica que não deixa de ter defeitos e da qual a autora não esconde os seus actos mais degradantes, criando simpatia e admiração por esta personagem, que cresce e ganha experiência ao longo da história, surpreendendo-nos muitas vezes, não pela sua perfeição, mas imperfeição.
Se Mary sobressaí claramente, as restantes personagens estão lá para exercer um papel no seu destino e falham na maioria das vezes por serem estereotipadas, faltando-lhes personalidade. Poucas são as personagens que nos conquistam como Mary ou a que a conseguem suprimir pois este livro é sobre ela, a sua vida e a sua história. Mas a autora consegue combater a debilidade das personagens com descrições fortes e uma narrativa envolvente que nos levam até ao outro lado mundo, a locais exóticos e perigosos onde a coragem é a única que nos pode salvar. Cheio de momentos dramáticos, capazes de provocar o maior dos desgostos, esta narrativa é uma aventura e uma lição de vida, que no meio da adversidade também é capaz da maior das purezas e dos actos mais doces.
Nunca Me Esqueças é um relato belo, surpreendente e tremendamente trágico de uma mulher de garra, de um mundo em mudança e do nascimento de um país. Aconselho a quem não tem medo de histórias tristes, a quem tem sempre uma réstia de esperança e a quem admira a mulher, a coragem e quem faz a diferença no mundo.


4*Opinião Clube BlogRing seguindo a classificação do Goodreads

Teaser Tueday (41)

Regras:

  • Pegar no livro que estamos a ler
  • Abrir numa página à sorte
  • Partilhar duas frases dessa página. Não incluir spoilers!
  • Partilhar o título e o autor do livro



"Tinha a certeza que o meu cão, se estivesse comigo, gostaria logo de Rag, Piggy e Snip. A não ser que fossem porcos. Mops fugia sempre que via um porco."
p. 166, Transformar-se em Maria Antonieta, Juliet Grey   

Rubrica original do blog Should Be Reading

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Opinião - À Procura de Alaska

Título Original: Looking for Alaska
Autor: John Green
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 256

Sinopse
 Na escuridão atrás de mim, ela cheirava a suor, luz do sol e baunilha, e, nessa noite de pouco luar, eu pouco mais podia ver além da sua silhueta, mas, mesmo no escuro, consegui ver-lhe os olhos - esmeraldas intensas. E não era só linda, era também uma brasa."
Alaska Young. Lindíssima, esperta, divertida, sensual, transtornada… e completamente fascinante. Miles Halter não podia estar mais apaixonado por ela. Mas, quando a tragédia lhe bate à porta, Miles descobre o valor e a dor de viver e amar de modo incondicional.
Nunca mais nada será o mesmo.


Opinião


Livro de estreia de John Green, À Procura de Alaska foi publicado em 2005 e tornou-se um sucesso tal que irá ser adaptado para filme por Hollywood. Primeiro dos cinco livros de Green, venceu nove prémios literários e já foi traduzido para quinze línguas. O autor tornou-se conhecido não só no mundo literário mas na internet onde tem um espaço conjunto com o irmão, Hank, onde discutem livros, a sua vida e ocorrências do dia-a-dia. Actualmente o Brotherhood 2.0 foi substituído pelo “The Vlog Brothers” um vídeo blog que faz parte da iniciativa Nerdfighters.
Conhecido por escrever livros actuais e que abrangem temas vastos da nossa vivência, neste livro Green apostou no tema da adolescência, nas amizades e asneiras dos dezasseis anos, na simplicidade e exagero de uma mente que começa a abrir-se para as possibilidades, para o infinito das sensações, para o crescimento e as responsabilidades que a idade traz. Entre as opiniões mais que positivas que este livro recebeu e as não tão positivas, eu já esperava uma narrativa simples, sem grandes desenvolvimentos e, apesar de isto se ter verificado, o livro não foi definitivamente o que estava a espera e penso que a sinopse do livro consegue ser bastante enganadora dando azo ao leitor pensar que este é mais um típico romance juvenil.
Tal como o livro está dividido em Antes e Depois, também a minha opinião dele assim ficou dividida pois a surpresa, a beleza dele está na segunda parte onde o autor entra nas questões mais filosóficas e pensativas, onde as consequências vão revelar-se inesperadas e a vida e a morte se tornam inexplicáveis apesar da mente e do coração precisarem das respostas para o não aceitável. A escrita de Green é simples, divertida e enternecedora, muitas vezes com o mesmo espírito e idade das suas personagens e consegue relembrar os leitores mais adultos das suas fases dos dezasseis, as asneiras, os primeiros amores, as amizades mais fortes e dedicadas, as primeiras experiências, o que fará com que o leitor tanto se ria das parvoíces deste grupo de jovens como pode torná-lo nostálgico, levando-o através das recordações já há muito esquecidas.
Quando iniciámos a leitura deste livro deparámo-nos, não com a narrativa espectacular que estaríamos a espera mas com um relato, um relato sobre um grupo de adolescentes que se estão a descobrir, a aprender a crescer, a fazer asneiras, a descurarem o importante porque a mente deles está noutro lado, está nos primeiros pensamentos sobre as questões que assolam toda a vida do ser humano, o amor, a amizade, a família, quem é que eles são, quem querem ser e o que poderão ser. Entre conversas filosóficas e parvas acompanhadas por umas quantas garrafas, os primeiros cigarros, estes adolescentes, tão diferentes, de mundos tão opostos, identificam-se, são companheiros, são leais e dedicados mesmo no egoísmo da idade e é isso que pode enternecer o leitor mais atento a esta leitura. Quem passou por experiências parecidas vai compreendê-los, outros vão repreendê-los, há quem mesmo possa ficar indiferente às idiotices deste grupo mas é impossível, na segunda parte do livro, não ter vontade de os proteger, de sentar com eles e falar, explicar, que um dia tudo o que tem importância para eles não vai fazer sentido, que até a dor mais profunda se esconde, que até o amor mais forte quebra.
Para mim, a maior magia do autor foi ter pego em personagens com personalidades tão frágeis quanto indefinidas, em miúdos que ainda não sabem o que querem, que mal pensam no futuro pois apenas miúdos assim podem transmitir mil sensações, desde o desprezo à protecção. Miles não é perfeito, é apenas um adolescente normal, tímido, por vezes fraco mas com sentimentos tão fortes que é difícil não sentir simpatia por ele. É o típico personagem que não é protagonista e daí o seu encanto. Ao longo da leitura vai mostrando a sua personalidade através de citações que nos fazem pensa, através de pensamentos com que até nos poderíamos identificar, vai fazer com que voltemos a ter dezasseis anos e sejamos despreocupados, rebeldes e com o mundo pela frente. Alaska, é para mim, a típica miúda que a todos fascina ou que ninguém gosta, a rapariga que ninguém irá compreender pelo simples facto de ser uma adolescente mas ao mesmo tempo já ser mais madura, mais pensativa, com uma carga emocional pesada que não pode ser salva. Inconstante, tonta e para lá deste mundo, vai irritar-nos mas também nos vai fazer sorrir.
Tudo muda na segunda parte do livro quando estes jovens caem no dramatismo e na depressão que um acontecimento fatal lhes provoca. Como todos nesta idade, eles vivem tudo como se fosse o último dia, como se nunca mais fossem sentir algo assim na vida, como se a vida tivesse de ser vivida no agora e no já porque pode acabar tão depressa quanto o teste que foi aguardado com imenso desespero e depressa acaba. É aqui que se sente o brilho da simplicidade de Green, como um livro tão normal e simples pode transmitir tanto, dar tanto e em poucas páginas exaltar, explicar e redescobrir as questões mais simples da vida. Um momento mudou toda a minha opinião do livro e ao ler estas palavras que escrevo percebo o quanto este livro afinal mexeu comigo, o quanto ele me fez recordar e o quanto o teria adorado noutra idade.  
Este livro exala o cheiro doce da baunilha misturado com o dos livros e do fumo do cigarro, sente-se o calor forte do Verão, o toque da água fria e o peso das primeiras cores, das primeiras sensações, de quando deixámos de ser crianças para começarmos a ser adultos. Não lhe vou chamar obra-prima porque não achei que o fosse mas é sem dúvida um livro especial.


4*Opinião Clube BlogRing seguindo a classificação do Goodreads