segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Opinião - Uma Casa de Família

Título Original: The Novel in The Viola
Autor: Natasha Solomons
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 416

Sinopse
 Na primavera de 1938, a ameaça nazi paira sobre a Europa. Em Viena, a família Landau vê desaparecer muitos dos seus amigos e teme pela sua segurança. Decidem fugir do país mas não poderão partir juntos. Elise, a filha mais nova, é enviada para Inglaterra, onde a espera um emprego como criada de uma família aristocrática. É a única forma de garantir a sua segurança. Para trás deixa uma vida privilegiada. Em Tyneford, ela tenta encontrar o seu lugar na rígida hierarquia da casa. É agora uma das criadas, mas nunca antes trabalhou. Tem a educação e os hábitos da classe alta, mas não pertence à aristocracia. Enquanto areia as pratas e prepara as lareiras, usa as magníficas pérolas da mãe por baixo do uniforme. Sabe que deve limitar-se a servir, mas não consegue evitar o escândalo ao dançar com Kit, o filho do dono da casa. Juntos vão desafiar as convenções da severa aristocracia inglesa numa história de amor que tocará todos os que os rodeiam. Em Tyneford, ela vai aprender que é possível ser mais do que uma pessoa. Viver mais do que uma vida. Amar mais do que uma vez.

Opinião

Nascida em 1980, Natasha é argumentista juntamente com o marido, David e também escritora, tendo já publicado dois romances. Mr Roseblum’s List, o seu primeiro romance e finalista dos Galaxy National Book Award é um bestseller internacional e Uma Casa de Família, originalmente publicado em 2011, já conta com mais de 30 traduções e tem sido muitas vezes comparado à premiada série Downton Abbey. O romance foi inspirado na aldeia fantasma de Tyneham, assunto sobre o qual a autora sempre quis escrever e ao qual deu vida após ler um artigo sobre as judias que escaparam ao Nazismo sendo criadas na Grã-Bretanha.
Apesar de não dispensar a lareira nos dias mais frios do Inverno, assim que os primeiros narcisos começam a nascer Natasha regressa ao seu local de escrita preferido, o pavilhão de verão que se encontra no fundo do seu jardim. Amante do campo, a autora nasceu e continua a residir nos espaços verdes de Dorset.
Sem dares conta, o teu mundo pode mudar de um dia para o outro. Pequenos sussurros, sorrisos estagnados, olhos em baixo e palavras menos sinceras, são pequenos sinais de que a vida que sempre conheceste se está a desmoronar, peça a peça, sem que haja nada que possas fazer para o impedir. As pessoas que conheceste desaparecem sem aviso, em locais onde eras bem-vinda fecham-te a porta na cara, a tua família feliz e perfeita está sempre alerta enquanto rugas de preocupação se formam nas suas faces onde antes só havia sorrisos. Algo mudou mas mesmo quando deixas para trás tudo o que conheces e amas ainda não percebes que o teu mundo já não existe nem voltará a existir. Judia vienense, Elise parte de umas das cidades mais belas do mundo e de uma vida de regalias para um canto esquecido de Inglaterra, um sítio onde lavará escadas, polirá as pratas e acenderá lareiras. Um sítio onde descobrirá uma nova vida e uma nova casa, onde irá amar, onde se irá tornar noutra pessoa. Um local onde, enquanto o mundo se quebra, irá viver os momentos mais felizes e tristes da sua existência.
A escrita de Natasha é o que se pode chamar uma escrita doce, delicada e sentimental, que marca a narrativa ao compasso de uma melodia que nos aconchega e enche de saudades enquanto nos arrebata com a profunda tristeza que toda a história nos causa. Quadro de uma época atroz, este livro mostra-nos uma faceta que poucos se lembram de retratar, a dos que ficaram em casa, dos que sentiram o flagelo das armas mas foram esquecidos, dos que deram mais do que a vida para uma guerra que lhes levaria toda uma forma de existência, dos que abandonaram tudo por causa de uma palavra que até aí não tinha tanto significado na sua vida. Num relato delicado mas cheio de profundidade, não revivemos apenas a vida de uma rapariga longe de casa, da família e da sua cultura mas também o fim de um local esquecido mas abençoado, o término das grandiosas casas de campo, pertenças do passado e transmissíveis por heranças de séculos, a morte do idílico paraíso inglês, tão verde e silencioso.
Um hino à beleza e felicidade de um mundo perdido, Uma Casa de Família é um sussurro subtil, um chamamento ao passado e às ligações, onde podemos encontrar um pensamento e uma sociedade que já não existem através das palavras de uma jovem, conotada como judia mas que pouco ligava importância a esse facto até perder tudo por causa dela, que irá crescer e mudar longe da cidade onde nasceu e da sua família, que irá apaixonar-se e descobrir o seu lugar no mundo, que descobrirá uma nova casa para a voltar a perder. Enquanto Elise aprende uma nova língua e costumes e sofre pelos que estão longe, ela descobre que casa é onde está o nosso coração e que memórias e lembranças devem ser vividas através de sorrisos e não de lágrimas. Vienense de nascimento e inglesa por amor, esta jovem aprenderá vivendo e revivendo e descobrirá, que seja qual a língua em falemos é a nossa alma que dita qual a verdadeira.
Encontrámos neste livro personagens tão subtis quanto profundas, personificações de um espírito e de uma época, archotes de ideais que há muito se perderam mas que nunca desistiram nem quando o fim era uma certeza tanto nas mentes como nos corações. Capazes de dar novas oportunidades e de renascerem das ruínas de outrora serão incansáveis, passando por cima das suas crenças para continuarem a dar vida a um mundo sombrio e destruído. Entre a calmaria e a tempestade, entre a rebeldia da juventude e a sensatez dos que já passaram a idade das tropelias, as nossas personagens, uns com voz mais sossegada e mão de ferro, outros com o estrondo dos risos e a ferocidade da paixão, transportam-nos para outra altura, para a imponência de Tyneford e o verdadeiro significado de lar.
Apesar das referências à série Downton Abbey, este livro é um romance próprio, com uma história própria e não tem quaisquer parecenças com a série, tirando o facto de se passar numa casa grande de campo e mostrar a azáfama dos criados no seu dia-a-dia mas não deixa por isso de ser menos apreciável ou mais irrealista. Sem ser o que estava a espera, Uma Casa de Família conquistou-me pela sua força subtil e pelo seu relato inocente, por me fazer regressar a um tempo e lugares onde as brisas traziam mudanças mais duradouras e sofridas e por me dar uma nova visão de uma época que não deixa de nos atormentar.

6*

12 comentários:

  1. Provavelmente quando comparam com Downtown Abbey é pelo género de história e não porque sejam histórias semelhantes ou parecidas. Ainda não li mas tenho muita curiosidade. A ASA tem publicado romances excelentes.

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    1. Sim, foi o que eu supôs mas muitas pessoas ao verem esta comparação devem achar que é parecido quando pelo contrário. A ASA tem se esmerado nos últimos tempos e este é mais um romance fantástico a juntar aos outros =)

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  2. Olá,

    Bolas lês a uma velocidade estonteante, ou tens muitas criticas em atraso ou és muito rápida a ler :D

    Parece que estamos na presença de mais um excelente romance, ou então és tu que pela forma como descreves o livro fazes com que fiquemos imensa vontade de ler.

    Aqui o problema é que temos vários gostos em comum e geralmente concordo quase sempre, para não dizer sempre :D, com os teus comentários.

    Bjs

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    1. Olá!

      Por acaso o blogue está, para meu orgulho, com as opiniões em dia xD Eu é que pareço uma maluquinha a ler lool E tenho tempo livre...que vai acabar para a semana ;_;

      Não querendo ser causadora da desgraça da tua carteira mas acho que o devias ler =p É um óptimo livro com uma beleza ímpar sobre esta época =)

      beijinhos

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  3. eu já vi este livro na Amazon e tb é referenciado para quem gosta de Downton Abbey. Nos últimos anos parece ser comum dizerem esse tipo de coisas. Em alguns casos justifica-se, mas na maioria não.
    Se isto agrada a quem gosta de Downton Abbey tb agradarida a quem viu Upstairs Dowstairs nos anos 70 e a quem viu o filme Gosford PArk cujo o argumento é assinado pelo Julian Felowes o mesmo de Downton Abbey.
    Eu já tinha vontade de ler o livro, dp de ler o teu comentário vou ter mesmo que o fazer :)

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  4. Finalmente comecei a ler este livro. Já lhe peguei uma vez mas achei o começo meio boring e não estando com o espírito certo dei a oportunidade a outro. Agora voltei a pegar nele e a ler do princípio mas, volvidas mais de 30 páginas, continuo com a opinião anterior. Não acho a escrita muito cativante, às vezes distraio-me durante as descrições, que estou a achar um pouco aborrecidas, e a rapariga fala dos pais usando os seus nomes próprios em vez do parentesco. :|
    Depois parece que foi adotada porque toda a gente é linda e talentosa e ela um autêntico patinho feio. Tenho adorado os livros da ASA mas ainda não estou a conseguir entrar neste livro. Sei Diz-me que vai melhorar! LOL

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    1. Caro/a Anónimo/a,

      VAI melhorar lool os aspectos que apontas também me fizeram confusão mas isso é porque a educação dela é completamente diferente da nossa. Depois, o patinho feio ainda tem muito com que nos surpreender mas é preciso chegar com ela a Inglaterra =) Quanto à escrita da autora, é diferente e é preciso ler mais umas páginas para percebermos a beleza dela.
      Não desistas porque realmente é um dos melhores livros que a ASA já publicou!

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    2. Tencionava continuar, sim. Mas ajudaste-me a levar a tarefa em diante. :) Agora estou mais confiante. Obrigada! :D

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    3. De nada!=D

      Depois vem cá dizer o que achaste ;)

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    4. Tinhas razão. Estou a adorar. :)
      Ainda bem que insisti!
      beijinhos

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    5. Eu disse!=D Fico muito feliz por estares a gostar *.*

      beijinhooosss

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