domingo, 17 de fevereiro de 2013

Opinião - A Mão Esquerda das Trevas

Título Original: The Left Hand of Darkness
Autor: Ursula K. Le Guin
Editora: Editorial Presença
Número de Páginas: 254

Sinopse
 Livro vencedor dos Prémios 'Hugo' e 'Nebula' (1969) traça um caminho de extrema originalidade por um mundo gelado de seres andróginos. Genly Ai é enviado para o planeta Gethen por uma federação interestelar, o Ecuménio. Governado por um rei extravagante, a estranheza deste universo acentua-se na multiplicidade de géneros sexuais, em que os seres podem ser simultaneamente mães e pais de diferentes crianças. Genly, o enviado para esta missão sofre uma mudança de pensamento e aprende a aceitar as diferenças abismais que encontra na forma de relacionamento entre estes seres.
Le Guin explora criativamente os temas da identidade sexual, incesto, xenofobia, fidelidade e traição deixando, como na maior parte dos seus trabalhos, uma poderosa mensagem social que nos convida a ir além do racismo e sexismo. Um livro fascinante do princípio ao fim descrito como “um brilhante rasgo de imaginação” e considerado um dos grandes romances do século XX. Um imperdível clássico de ficção científi
ca.


Opinião

Filha de antropólogos, Ursula desde cedo que se interessou por mitos e lendas, pela evolução humana e as alterações nas sociedades, interesses que também levaram ao seu interesse precoce pela literatura e à sua licenciatura em Línguas Latinas. Casou com o historiador Charles Le Guin em França onde o conheceu mas acabaria por regressar aos EUA com a família no fim dos anos 50. Apesar de o seu primeiro conto aos 11 anos ter sido recusado, Ursula não desistiu de escrever e em 1960 descobriu um género que lhe permitiria contar as histórias à sua maneira, a Ficção Científica. Desde aí, começou a escrever regularmente e o seu sucesso chegou em 1968, quando publicou O Feiticeiro de Terramar.

Um ano depois, Ursula daria vida a mais um livro do Ciclo de Hainish, uma série de livros independentes mas cujo espaço faz parte do mesmo universo criado pela autora. Esse livro, o quarto da série ficou conhecido como o seu melhor trabalho de sempre e é, a par da série Terramar, o seu livro mais conhecido. A Mão Esquerda das Trevas deu-lhe reconhecimento mundial e os seus primeiros Nebula e Hugo. Considerado um dos maiores trabalhos feministas da ficção científica e o segundo melhor livro de sempre do género, valeu a Ursula uma viragem na sua carreira e foi considerado que ela, mais do que Tolkien, terá elevado a fantasia a alta literatura.

Num planeta gelado a humanidade evoluiu de forma diferente, vê e vive de outra maneira. Afastados do planeta mais próximo em dezassete anos, os habitantes de Inverno crêem que o espaço é um lugar vazio e negro até que um alienígena aterra no seu planeta e lhes fala de outros povos, outros planetas e alianças comerciais e sociais. Genly nunca viu nada assim e nem a sua preparação o pode preparar para o que é viver e conviver com um povo sem igual no resto do universo conhecido. Com uma missão de paz e comércio, ele pensa que será fácil concluir as negociações mas esperam-no momentos difíceis e mais do que tudo, ele nunca pode pensar o quanto a sua mente e ele próprio serão alterados por este lugar inóspito.

Ursula é uma poetisa na prosa, uma escritora que toca em temas fortes com uma profundidade que poucos escritores podem algum dia pensar em imitar. Num imaginário ilimitado, ela faz mais do que muitos fizeram no mesmo género. Ela criou sociedades e regras, lendas e calendários, sistemas políticos e económicos sem precisar de explicar detalhadamente o que cada um deles é pois a sua forma de transmitir ideias é de tal qualidade que o leitor se embrenha na leitura sem querer saber de explicações. Adaptando dois sistemas políticos conhecidos a um mundo futurístico onde nada é igual, alterando a espécie humana de tal forma que poucos de nós conseguem concebê-la, a autora criou algo único onde pode extravasar conceitos abstractos que ainda hoje nos marcam como o racismo e o sexismo, a traição e o incesto.

Através de uma viagem introspectiva de duas personagens diferentes que se estranham e acabam por se conhecer como ninguém, conhecemos um mundo onde muitos de nós não se sentiriam a vontade, um mundo gelado onde está sempre frio, um mundo sem os luxos diários a que nos habituámos, um mundo onde a sociedade pensa e age sem os nossos erros mas que não deixa de ter os seus próprios defeitos. Aqui não existe identidade sexual definida, aqui podemos ser pai e mãe, aqui o incesto pode acontecer desde que seguindo certos parâmetros, e tal como a personagem principal iremos terminar este livro com uma visão completamente diferente daquela com que o começámos. Numa narrativa complexa e profunda, extremamente filosófica e psicológica, aprendemos a aceitar as diferenças, a compreender outro tipo de cultura, a admirar um povo que nada tem a ver com o nosso, nem na forma de sentir nem na de pensar. É preciso, sem dúvida, uma capacidade gigante para escrever algo assim e nos fazer entender, é preciso ser se um grande escritor para em poucas páginas colocar conceitos tão elevados em xeque e mudar a nossa mentalidade.

Tal como nos habitou, a autora constrói personagens profundas e complexas, mas neste livro há dois tipos de personagem e ambas se estranham, nenhuma se entende até que a solidão do vazio gelado as leva a partilhar histórias e conhecimentos, até que a convivência diária permite compreender e até admirar as diferenças entre eles. Neste livro, a amizade, a fidelidade, o amor e a família ganham outro sentido, desbravam a nossa mente, esvaziam-na e voltámos a reaprender coisas que sabemos desde sempre. Este é um livro que muda, que vira tudo ao contrário e que é soberbo e uma obra-prima.

Mais uma vez, Ursula Le Guin mostra a sua qualidade e poder, os seus conhecimentos e a sua forma de ver o mundo. Mais uma vez, ela arrebata e entranha-se nas nossas mentes ávidas. É difícil não ler este livro e não compreender o porquê de ser considerado genial pois A Mão Esquerda das Trevas não é um livro normal de aventuras, espaço e naves espaciais, é um livro que leva a Ficção Científica a outro patamar e que mostra que um grande autor pode reinventar-se e fazer ainda melhor. 

7*

5 comentários:

  1. Olá,

    Bolas que grande comentário, não tenho o livro mas tenho quem me empreste, já tinha percebido que era mais um excelente livro, a ver se ainda consigo ler este ano.

    A FC tem coisas bem boas sem duvida ;)

    Bjs

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  2. Um excelente livro, de uma Grande Autora, que disso não existam duvidas.

    Só fiquei uma "duvida", não te terás enganada ao dizeres que "Num planeta gelado a humanidade evoluiu de forma diferente" e que "até que um alienígena aterra no seu planeta" sendo esse alienígena o Genly Ai? Se é certo que já li o livro à 10 anos a verdade é que foi um livro memorável e tenho (quase) a certeza que o Genly é humano e a sinopse da contra capa parece corroborar as minhas memorias.

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    1. Olá Marco!

      A ideia que eu fiquei é que o povo de Inverno é o género de uma espécie humana mas muito diferente do que somos hoje, pelo menos foi o que eu percebi até pelo o que o Genly diz, quanto a ele, usei a palavra alienígena porque naquele mundo é assim que ele é visto e pela descrição também não consegui perceber se ele é um humano como nós somos ou de outro género apesar que agora que falas nisso, ele diz que vem da Terra (acho?)

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  3. Como eu disse já li o livro já lá vão (quase) dez anos, mas a impressão que com que fiquei foi que o Genly é Humano e o povo de Inverno os extraterrestres. E agora deste-me vontade de ir reler essa colecção toda outra vez... :P

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