terça-feira, 7 de maio de 2013

Opinião - Estrada Vermelha, Estrada de Sangue

Título Original: Blood Red Road (#1 Dust Lands)
Autor: Moira Young
Editora: Editorial Presença
Número de Páginas: 336

Sinopse
 Estrada Vermelha, Estrada de Sangue é um thriller futurista, uma aventura épica que se passa num período pós-apocalíptico e extremamente violento. Saba, a protagonista, é uma jovem que viveu sempre em Silverlake, numa zona remota, inóspita e quase deserta, até ao dia em que uma tempestade de areia traz consigo um bando de terríveis criminosos que lhe matam o pai e levam consigo Lugh, o irmão gémeo que ela adora. Sozinha com Emmi, a irmã mais nova, Saba vai investir toda a sua coragem e o seu espírito combativo na busca do irmão, numa demanda perigosíssima e empolgante, através de intermináveis extensões desérticas e violentas intempéries, que culminará numa apoteose de pura adrenalina.

Opinião
  Nasceu no Canadá mas foi em Bath que encontrou o seu último refúgio. Foi actriz, bailarina e cantora de ópera, uma mulher das artes da música e da dança mas o seu coração sempre pertenceu aos livros. Como não havia tanta escolha na sua adolescência como existe hoje, Moira leu os clássicos das irmãs Brönte, Dickens e Eliot mas como preferidos, são ainda hoje, A Ilha do Tesouro e The Secret Garden. Em 2011 viu o seu primeiro livro ser publicado e conquistar alguns dos prémios mais desejados do Reino Unido. O seu sucesso foi tal que chega a ser comparado à trilogia de Os Jogos da Fome.

  Estrada Vermelha, Estrada de Sangue saiu da mente de alguém que viveu na propaganda e histerismo da Guerra Fria e de uma iminente catástrofe nuclear para uma geração que hoje vive os problemas de um planeta sobrelotado, de alterações climáticas que podem ser catastróficas. Foi assim que surgiu a ideia deste livro mas coloca-lo em papel custou um pouco mais. Cinco anos depois de uma luta estrangulada, Moira descobriu como dar voz a este livro, como dar voz a Saba e a partir daí surgiu este sucesso, hoje traduzido para trinta países, com os direitos vendidos para cinema e com a sua conclusão a menos de um ano de chegar às livrarias.

  No céu, as estrelas brilham. Contam histórias, decidem destinos, guardam vidas. Na terra, a areia é vermelha, quente e densa. Esconde, fortalece. Saba é guardada pelas estrelas, foi criada pelo deserto e é mais do que ela própria imagina. Dentro dela há uma vontade férrea, uma certeza inabalável, um amor destruidor. Pela sua metade, a sua metade iluminada, ela é capaz de tudo, até arriscar a sua vida até ao limite. Levada pelo desespero e pela vontade, ela percorre caminhos que nunca viu, torna-se uma heroína da arena, transforma-se numa guia para os que lutam. O caminho que trilha não é fácil mas traz surpresas e desilusões. Traz a vontade do seu coração e a do seu ser. E Saba tem de ser suficientemente dura, suficientemente forte para travar uma demanda que já não é só dela.

  Moira entra no mercado literário com mais uma distopia mas esta não é uma distopia qualquer. Através de uma linguagem que reflecte bem quem é a personagem principal e qual a sua história, Moira dá-nos uma história crua, dura e viciante, uma narrativa tão seca quanto um deserto e ao mesmo tempo tão admirável que é impossível não corrermos as suas páginas com uma vontade sobrenatural de querer saber mais. Utilizando as emoções mais puras do ser humano, a autora leva-nos ao limite da agressividade, da decadência e da coragem sem nunca nos deixar de espantar com a forma como retrata uma sociedade acabada, perdida na ignorância e na pobreza cujos costumes remetem para uma sociedade antiga, onde vícios e poder caminham de mãos dadas. 

  Através de uma viagem cheia de perigos, enganos e desvios, Saba entrega-se de uma forma feroz ao seu objectivo. Custe o que custar, doa a quem doer, ela só deseja uma coisa mas o destino e uma pedra estão prestes a ensiná-la que o mundo e a vida têm muito mais para dar, muito para ensinar e que talvez tudo o que ela pense saber não está assim tão certo. Num cenário onde primitividade e resquícios do tempo presente se misturam de uma forma quase perfeita, somos transportados para uma luta pela vida, pela salvação, por um refúgio. Todo este livro é primitivo, quer em sensações, quer em personagens, quer no cenário em que se passa. Este é o homem que esquece a racionalidade por tudo, que mata sem peso de consciência, que traí pelo seu bem, que engana pelos seus objectivos. Aqui nada é bonito tirando o mais importante. A forma como cada personagem se entrega à outra, a forma intensa e quase cega como gosta, a forma como se rende quando fica claro que isso é o necessário.

  Este mundo é construído em memórias passadas, decadência, tristeza e envolve em sim factores de hoje e do passado. É uma conjugação audaz de intensidade e ferocidade que nos prende e deixa maravilhados. Do deserto e cidades destruídas passámos para uma arena, daí para um cenário quase luxuoso de França do século XVII com plantações colombianas. Neste livro tudo se conjuga e cria assim uma história fantástica onde os corações são bem guardados por trás de olhares ferozes e bocas franzidas. Aqui sente-se com tal entrega que nos deixa assoberbados mas fisicamente nunca se transparece, tal é a necessidade de ser o mais forte.

  Saba é uma protagonista que nos surpreende, que nos força a olhar para o nosso interior, que nos marca pelo seu fervor e garra. Teimosa, feroz, ela subjuga-nos com a sua força, com a sua personalidade dura, com a forma como encara tudo a direito. Marcante, ela é uma daquelas protagonistas que nos fazem ler um livro só para a conhecer melhor. À sua volta temos personagens marcadas pela dureza da vida, personagens enigmáticas, corajosas, loucas até. Elas formam um grupo formidável que irá marcar o leitor pela entrega, devoção e destreza com que sobrevivem, se ajudam, se encaixam uns nos outros.

  Um livro cuja continuação espero ansiosamente, Estrada Vermelha, Estrada de Sangue superou todas as expectativas e demonstra que a distopia cada vez se singra mais pela qualidade, diversidade e originalidade que trouxe ao palco literário. Uma estreia soberba por parte de Moira, este livro vai deixar-vos assolapados. 

6*

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