segunda-feira, 24 de junho de 2013

Opinião - Ponte de Sonhos

Título Original: Bridge of Dreams (#3 Efémera)
Autor: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 448

Sinopse
 Quando os magos ameaçam Belladonna e o seu trabalho para manter Efémera em equilíbrio, o seu irmão Lee sacrifica-se para a salvar — e acaba por ser internado num Asilo na cidade de Visão, longe de tudo o que conhece. Ao mesmo tempo, umas estranhas trevas parecem estar a espalhar-se — uma escuridão que esconde a natureza dos Xamãs que cuidam da cidade e da sua população. Danyal, um dos Xamãs, é o responsável pelo Asilo. Mas talvez por estar a tentar descobrir os seus próprios sonhos, Danyal sente-se intrigado pelos aparentes delírios de Lee. Com a ajuda de Zhahar, uma mulher com os seus próprios segredos tenebrosos, a mente e o corpo de Lee melhoram, e as suas palavras começam a fazer sentido. Em breve, Danyal e Zhahar começam a vislumbrar o mundo como nunca haviam imaginado. Quando Danyal, Lee e Zhahar se unem para descobrir o que ameaça a cidade, serão obrigados a olhar para além de si mesmos — e para dentro de si mesmos — para descobrir quem são… e até que ponto podem ser demasiado perigosos.

Opinião


  Com Filha do Sangue, Anne Bishop tornou-se um dos nomes mais adorados da fantasia, principalmente no que a gótica concerne. Uma autora com uma voz única, alguém inimitável e genial, Anne tem-nos passado o seu gosto por histórias densas e românticas através das suas próprias palavras, através de personagens que nos marcam e nunca mais esqueceremos. Para além da escrita, dedica-se a jardinagem e tem um certo apreço a música bem como a sua intimidade. Apesar de não ser das autoras mais presentes, é inegável o apreço que os fãs sentem por ela.

  Oito anos depois de a Trilogia das Jóias Negras lhe ter reservado um lugar como uma das autoras de fantasia de maior sucesso, Anne deu a conhecer ao mundo uma nova realidade através de Sebastian, o primeiro volume da trilogia de Efémera, um lugar onde o coração tudo decide até onde daremos o próximo passo. Uma trilogia que tem dividido os seus leitores mas que mantém a alma negra e gloriosa das suas obras, ela chega, pensámos nós, agora ao fim, com Ponte de Sonhos.

  Antecedido pelo conto A Voz, este terceiro volume foi publicado no ano passado pela primeira vez e é traduzido agora para o nosso país, para gáudio dos fãs. 
 
  Ele viveu sempre na sua sombra. Foi o seu protector, o seu melhor amigo, a metade que sempre a compreendeu e aceitou mas perdê-la, vê-la sacrificar tudo, estilhaçou a parte dele que sempre a amou como só o melhor e o mais fiel dos irmãos pode. Mas para a salvar, para manter aquilo porque ela quase se destruiu, ele é capaz de se quebrar e separar de tudo o que sempre conheceu. Louco, construtor, professor, Lee vai compreender um seu lado que nunca viu, vai ver o seu coração, liberto da sombra poderosa, como nunca pensou ver. Numa paisagem desconhecida, onde o que conhece tem outro nome mas o mesmo poder, o construtor de pontes de Belladonna vai descobrir quem é, o amor improvável e a amizade nascida da adversidade e compreensão mas para o fazer tem de combater um mal que ainda não está erradicado.

  Anne tem um jeito, um talento para dar vida a mundos inimagináveis que ninguém consegue igualar e Efémera é um daqueles casos em que a sua imaginação supera tudo o que nem poderíamos sonhar. Novos conceitos e espécies ganham vida através de sentimentos e gestos tão próprios de Anne, que, apesar da estranheza que um mundo onde pontes apenas nos levam onde o coração manda e não a razão e onde paisagens são construídas por desejos e anseios, parece que estamos onde sempre pertencemos, num local onde tudo nos é familiar, onde a forma como sentimos é peculiar mas entendida. Mais uma vez, a autora enreda-nos numa narrativa complexa, densa e obscura onde o melhor caminha lado a lado com o pior, onde o bem e o mal se diferem por intenção e objectivo, onde os bons são tão ou mais perigosos que os maus.

  Almas atormentadas que perderam o rumo, corações divididos entre dever e anseios, vivem num lugar onde os sonhos são loucura, onde os desejos são anormais e onde o mal que não escapou à purga de Belladonna chegou. Aqui a visão não é um sentido conjugado aos olhos, a verdadeira visão é aquela que nos permite ver a fundo o interior das pessoas, os seus sonhos e terrores, é aquela onde nos vemos realmente como somos. A cegueira é mais complexa do que nos parece, não nos permite conhecer a verdade da alma, a razão do coração. Ao longo desta leitura, família, amor e amizade são colocados à prova através de desafios que um coração solitário, uma mente abandonada, um corpo desencontrado têm de desbravar sozinhos pois apenas a solidão, a perda total pode levar-nos ao verdadeiro rumo de nós próprios.

  Não sendo o melhor trabalho de Anne, Ponte de Sonhos tem os melhores ingredientes das suas obras mas, fica a faltar algumas explicações sobre determinados assuntos, um fecho mais sólido que seria de esperar do fim de uma trilogia. A partir do fim, tudo começa a acontecer muito rápido e as últimas páginas, apesar de mais lentas, acabam por deixar algumas dúvidas. Mas acaba por ser um livro satisfatório, onde alguns desenrolares surpreendem e, mais uma vez, a família tem um peso enorme, proporcionando-nos muitas das cenas caricatas entre amigos, irmãos, amantes, pais e filhos, que só Anne nos sabe dar. Ou seja, este livro não desilude mas deixa algo inconclusivo no ar que faz parecer ainda não ter terminado por aqui as aventuras em Efémera.

  As personagens, como sempre, são estonteantes, magníficas, densas e complicadas, com alguns acrescentos bem surpreendentes. Aliás, as surpresas chegam-nos do lado das novas personagens, sendo que uma delas bem nos deixa pensar e acaba por conseguir concentrar toda a nossa atenção. Como acontece quando seguimos sagas, rever personagens já conhecidas é sempre um prazer principalmente quando, mesmo mudados, conseguem transmitir-nos as mesmas sensações de antes. Belladonna, continua, mesmo não estando tão presente, a ser a grande personagem de Efémera mas Lee ao dar-se a conhecer mais profundamente, conquista-nos e mostra que também consegue ser um bom protagonista.

  Ponto positivo, por último, à forma como a autora utilizou elementos de A Voz neste livro. Reencontrar e conhecer melhor algumas personagens do conto e puder saber o que lhes aconteceu, foi uma prenda muito querida da autora que só posso apreciar. As ligações entre conto e livro são construídas com perícia, sem desvendar muito para quem não leu o conto e permitindo a quem leu notar os elementos existentes em ambos.

  Sendo a minha autora preferida, Anne nunca me desilude mas confesso que esperava um pouco mais deste livro e, ao mesmo tempo, anseio para que haja mais. Ponte de Sonhos é uma porta aberta a verdadeira visão, aos ensinamentos do coração e, mesmo não sendo o melhor, é um livro obrigatório na estante de qualquer bishopiano.

6*
 

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A Voz

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