terça-feira, 30 de julho de 2013

Opinião - A Mecânica do Coração

Título Original: La Mecánique du Coeur
Autor: Mathias Malzieu
Editora: Contraponto
Número de Páginas: 144

Sinopse
 Primeiro, não toques nos ponteiros. Segundo, domina a tua cólera. Terceiro, nunca, mas nunca te apaixones, porque senão no relógio do teu coração, o grande ponteiro das horas trespassar-te-á a pele, os teus ossos implodirão e o mecanismo avariar-se-á de novo.


Edimburgo, 1874. Jack nasce no dia mais frio do mundo, com o coração... congelado. A Drª Madeleine, a parteira (segundo alguns, uma bruxa) que o trouxe ao mundo, consegue salvar-lhe a vida instalando um mecanismo - um relógio de madeira - no seu peito, para ajudar o coração a funcionar. A prótese resulta e Jack sobrevive, mas com uma contrapartida: terá sempre de se proteger das sobrecargas emocionais. Nada de raiva e sobretudo nada de amor. A Drª Madeleine, que o adopta e vela pelo seu mecanismo, avisa: «o amor é perigoso para o teu coraçãozinho.» Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração - o mecânico e o verdadeiro - de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor... e a sua crueldade. Um conto de fadas para adultos, ao estilo de Tim Burton ou Lewis Carroll.

Opinião

  Líder e vocalista do grupo musical rock francês Dionysos, formado em 1993, Mathias Malzieu, nascido em 1974, é também autor de quatro livros, publicados entre 2002 e 2011. Tal como as suas músicas, os seus livros mostram bem a veia surrealista e excêntrica que tem caracterizado a sua banda, bem como as influências em Tim Burton ou Roald Dahl. Os livros são concebidos como se fossem filmes, estando cada um deles relacionado a um álbum da banda, como bandas sonoras perfeitas a cada história. 

  38 Mini Westerns foi o seu primeiro livro e o primeiro a ter direito a uma banda sonora mas A Mecânica do Coração, publicado em 2007, foi o seu maior sucesso, tanto em livro como em álbum. Traduzido para doze línguas, é considerado um conto digno de Tim Burton e Lewis Carroll. O álbum como o mesmo nome recebeu o Disco de Ouro em 2008.

  Há livros que são pequenos contos de fadas mas isso não significa um “felizes para sempre” nem doces cores ou corações no ar. A Mecânica do Coração é um desses pequenos grandes contos, uma história irreverente e sublime, trágica e encantadora, negra e terna. Através de uma escrita poética, surrealista e profunda, Mathias cria algo de único, algo imensamente belo que vê e mostra o amor nas suas grandes complexidades, na glória absoluta da felicidade de amar e na queda destrutiva da desilusão de perder. Ao longo destas poucas páginas sentimos como poucos livros nos fazem sentir, somos tocados de formas tão profundas que tudo o que alguma vez experienciámos do amor é aumentado, excedido pelas palavras fortemente delicadas que nos envolvem nesta história de corações de madeira e de minutos contados.

  A premissa é simples, o enredo sedutor. A cada momento a nossa alma é enfeitiçada, o nosso coração compreendido, as nossas feridas esfregadas até sangrarem, a nossa felicidade é divinizada. O amor em todas as suas formas, belas e horrendas, doces e destrutivas, glorificadas ou derrotadas, é aqui descrito como o sentimento excessivo e intenso que realmente é, aquela sensação que nos faz voar até ao céu ou agonizar no inferno. Numa viagem de descoberta, no meio das diferenças e na raiva à estranheza, vemos um rapaz e um amor crescerem e mudarem, acompanhámos as mudanças que a esperança, a realização e a perda podem provocar. 

  Numa atmosfera sombria, aprendemos que este sentimento pode vir dos mais estranhos corações. De corações frios e cheios de ódio para um rapaz indesejado, de um coração-relógio para uma figura onírica, de um coração fogoso para algo belo e atormentado. Mas, mais do que isso, aprendemos que o amor só passa do sonho quando realizado e que a dada altura temos de esquecer o sonho para aceitar e podermos deter a realidade. Compreendemos também que amar não é fácil, pode magoar, quebrar, destruir por completo, que não é feito só de tentativas e promessas, ilusões e condescendências, é preciso alimentá-lo e nunca, nunca, mentir-lhe ou esconder algo. Mas principalmente, é preciso aceitar e acreditar.
 
  Do patético, do horrível, do estranho, o autor cria algo que nos relembra de momentos bons e maus, algo que nos faz chorar e sorrir, algo que reflecte com simplicidade e verdade o que escondemos bem fundo ou fingimos nunca ter sentido. Com personagens tão ridículas e odiosas, tão doces e frágeis, aprendemos, somos encantados, somos desnudados. Da Dra. Madeline a Joe, de Jack a Méliès, todos nos ensinam algo, todos são uma faceta desse sentimento ultrajante que comanda a vida.

  Com elementos góticos e modernos, com personagens fantasiosas e reais, Mathias faz magia pura, pura como a vida. Podia queixar-me do pequeno tamanho deste livro mas ele é perfeito assim mesmo, como um suspiro que passou e mal se ouviu mas que nos marca através do tempo da eternidade.

  A Mecânica do Coração é aquela história tocante, aquele conto maravilhoso que me faz recordar um dos meus filmes preferidos e que se imiscuiu no meu coração da mesma forma. Este é um livro que dá forma e cor aos sentimentos, este é o livro que nos fará associar relógios de cuco à sensação de estar apaixonado.

6*

6 comentários:

  1. O teu último parágrafo descreve na perfeição o livro! :D

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  2. Tenho lido tanto sobre este livro e ainda não me deu para lê-lo. Tenho de preencher essa falha o mais rápido possível :)
    Beijinho

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    1. Tens mesmo! É um livrinho maravilhoso =)

      beijos e boas leituras!

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