terça-feira, 16 de julho de 2013

Opinião - O Livro Negro

Título Original: Bring Up the Bodies (#2 Thomas Cromwell Trilogy)
Autor: Hilary Mantel
Editora: Civilização
Número de Páginas: 440

Sinopse
Continuando o que começou com o premiado Wolf Hall, regressamos à corte de Henrique VIII para testemunhar a ascensão de Thomas Cromwell enquanto planeia a destruição de Ana Bolena.
Em 1535 Thomas Cromwell é Primeiro-ministro de Henrique VIII, e o seu sucesso ascendeu a par do de Ana Bolena. Mas a cisão com a Igreja Católica deixou a Inglaterra perigosamente isolada e Ana não deu um herdeiro ao rei. Cromwell vê o rei apaixonar-se pela discreta Jane Seymour. A gerir a política da corte, Cromwell tem de encontrar uma solução que satisfaça Henrique VIII, salvaguarde a nação e assegure a sua própria carreira. Mas nem ele nem o próprio rei sairão ilesos dos trágicos últimos dias de Ana Bolena.

Com esta vitória histórica de O Livro Negro, Hilary Mantel torna-se o primeiro autor britânico e a primeira mulher a receber dois prémios Booker, além de ser o primeiro autor a consegui-lo com dois romances consecutivos.

Opinião


  Com uma carreira com mais de vinte anos enquanto escritora, Hilary Mantel é hoje considerada a melhor autora de prosa inglesa moderna da actualidade e tudo graças a um livrinho chamado Wolf Hall e a um homem chamado Thomas Cromwell. Em 2009, Hilary venceu o Man Booker Prize e foi nomeada para o Costa, o ano passado repetiu a façanha, venceu o Costa e tornou-se a primeira autora britânica a vencer dois prémios Booker e a primeira a consegui-lo com dois romances consecutivos. Ao reescrever a História, Hilary mal sabia que estava a fazê-la.

  Esta autora nascida em 1952 no Derbyshire, estudante de Direito, vencedora de um prémio por um artigo que escreveu sobre Jeddah e crítica de cinema, viveu no Botswana e na Arábia Saudita durante nove anos até regressar a Inglaterra nos anos 80. Experimentou todo o tipo de géneros, venceu os mais diversos prémios e alcançou a fama ao contar a história do homem esquecido do reinado de Henrique VIII.

  Depois do sucesso estonteante de Wolf Hall, o primeiro livro da trilogia de Thomas Cromwell, Hilary apresentou ao mundo O Livro Negro. Publicado em 2012 ainda com mais sucesso que o seu antecessor, já está traduzido para vinte e um países e promete um final de deixar cabeças a rolarem.

  Esta é uma nova dinastia, este é um país em mudança, este é o homem que mudou a História. Numa corte onde vale tudo para se subir alto na hierarquia do poder, onde as mulheres se tornaram peões para o desejo de um homem e as ambições das suas famílias, onde por mais baixo que se tenha nascido a astúcia pode levar longe, intrigas podem criar crimes, olhares podem tornar-se traição e a consciência e a vontade de um rei pode fazer cair até uma rainha. Dono de uma inteligência arguta, de uma intuição como poucas, Cromwell é agora um dos homens mais poderosos de Inglaterra mas ele sabe o quão rápido os favores de Henrique podem virar, sabe quão esfomeados estão os lobos por carne e poder, sabe que uma rainha sem varão pode ser esquecida mesmo que a paixão tenha desafiado o Mundo. Agora, as peças estão na sua mão e ele tem de escolher entre lealdades e sobrevivência, entre rei e rainha.

  Depois do magnífico Wolf Hall era difícil Hilary superar-se mas a verdade é que ela conseguiu o impossível. O Livro Negro é um relato brilhante e primoroso de uma corte e da vida de um homem, é uma concepção genial sobre intrigas, ambições e poder, é uma narrativa intensa onde fúria e terror andam de mãos dadas com argúcia e frieza. Escrito numa prosa única e soberba que não deixa ninguém indiferente, este é o melhor livro, juntamente com o seu antecessor, sobre o reinado de Henrique VIII que já tive o prazer de ler. Hilary descreve com a mestria dos que observam as intricadas regras de um jogo e as compreendem a fundo, cria como só quem sabe o faz. Aqui, ela eleva a fasquia tão alto que poucos poderão algum dia pensar em alcançá-la porque, escrever sobre os Tudors com cuidado, conhecimento e rigor não é para todos. Mais, dá vida e humanidade a um homem acusado pela História, a um homem que brilhou e caiu do mais alto precipício, um homem tantas vezes esquecido mas que sempre esteve nas sombras de cada gesto.

  Mais do que paixões e vontades escreveram a história de Henrique VIII, é preciso compreender a política para puder perceber como a religião se tornou uma questão de vida e morte na sua Inglaterra, é preciso tentar perceber o que movia este rei, os seus desejos e vontades, os seus sonhos e actos e, neste livro, podemos visualizar quão profundamente um homem mudou tudo para conseguir alcançar o seu feito mais desejado. Numa complexa teia de ligações, ambições e ideais, esta corte fez-se de saber medir o próximo passo, de pensar as palavras antes de as dizer, de dançar à volta de acusações e sussurros sempre com um sorriso de quem também sabe demais mas, principalmente, de com um olhar puderem determinar os humores de um rei volátil e poderoso. Num ambiente de tensão e mudanças profundas, de favores dados de manhã e retirados à noite, esta foi uma corte feita de segundas palavras, intenções disfarçadas à qual o mais fraco não conseguiria sobreviver.

  Cromwell soube-o fazer como ninguém e este livro elogia-o, mais, coloca um espelho à sua frente e mostra o homem tanto como o político, descreve os seus actos públicos com a frieza e capacidade de um mestre, recria os medos e pesadelos de um homem que sabia qual o preço a pagar pela elevada posição e amizade dedicada do rei. Uma personagem tantas vezes esquecidas mas que teve a sorte de ser recriada pela mais sublime das mestras, alguém que o viu como poucos, alguém que o entendeu como quase ninguém. Um homem de mistérios, jogador de todas as cartas, que esteve de todos os lados da cena política inglesa e que até ao último momento conseguiu sempre sair por cima. Um homem que mudou a política e a religião, um homem que pensou em números, livre-pensamento e na vontade dos homens, Cromwell foi a figura que prevaleceu contra todos os amigos e inimigos do rei, o homem que mudou um país e a História com a sabedoria de quem sabe que apenas uma vontade pode prevalecer no fim.

  Num retrato verosímil das personalidades que fizeram parte desta História, este livro mostra-os através das suas falhas, dos seus medos, dos seus desejos, mostra a alma escondida por trás do brilho e dos falsos sorrisos. Numa narrativa perfeita, recria passo a passo, a ascensão e a queda de uma rainha, a subida de um homem, o palco de um reinado que marcou o futuro de um país. Profundamente complexa e claramente humana, esta narrativa olha aos factos com olhos clínicos e entendedores, vê os rumores como armas a usar, faz a História não como a queremos imaginar mas, por mais desagradável que seja, como ela poderá mesmo ter sido feita.

  Genial, magnífico, brilhante. Do melhor que já se escreveu sobre os Tudors e um dos melhores livros que já li, O Livro Negro é um relato impressionante que nunca poderá ser ultrapassado. Um dos melhores livros do ano e que me deixa a salivar por aquele que será, de certeza, o melhor fim que alguma trilogia já teve.

7*
 
As minhas opiniões da série

4 comentários:

  1. Depois de ler esta resenha, também eu fiquei a salivar... parece-me excelente escolha :-)
    Obrigada pela dica. Beijos.

    Carla Pais

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    1. Obrigada Carla, espero que tenhas uma oportunidade para o ler!

      beijinhos e boas leituras

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  2. eu comprei-o hoje e só há instantes me apercebi que se tratava de uma trilogia.
    sabes se podem ler-se separadamente?

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    1. Eu aconselho a ler pela ordem porque os livros seguem-se temporalmente e se leres este sem leres o outro fica-te a faltar algo ou pelo menos as bases para os acontecimentos deste livro.

      Boas leituras!

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