segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Opinião - As Horas Distantes

Título Original: The Distant Hours
Autor: Kate Morton
Editora: Porto Editora
Número de Páginas: 528

Sinopse
 Tudo começa quando uma carta, perdida há mais de meio século, chega finalmente ao seu destino...

Evacuada de Londres, no início da II Guerra Mundial, a jovem Meredith Burchill é acolhida pela família Blythe no majestoso Castelo de Milderhurst. Aí, descobre o prazer dos livros e da fantasia, mas também os seus perigos.
Cinquenta anos depois, Edie procura decifrar os enigmas que envolvem a juventude da sua mãe e a sua relação com as excêntricas irmãs Blythe, que permaneceram no castelo desde então. Há muito isoladas do mundo, elas sofrem as consequências de terríveis acontecimentos que modificaram os seus destinos para sempre.
No interior do decadente castelo, Edie começa a deslindar o passado de Meredith. Mas há outros segredos escondidos nas paredes do edifício. A verdade do que realmente aconteceu nas horas distantes do Castelo de Milderhurst irá por fim ser revelada...

Opinião

  Australiana, Kate mudou-se várias vezes com a família até assentarem em Tamborine, uma zona montanhosa no sudoeste de Queensland. A mais velha de três irmãs, Kate começou a ler muito cedo e, ainda hoje, recorda com carinho os livros de Enyd Blyton. Contudo, foi o teatro a primeira paixão mais premente e foi nessa área que se licenciou no Trinity College London, chegando mesmo a fazer um curso de verão dedicado à Shakespeare na Academia Real de Artes Dramáticas, também na capital britânica. Mais tarde, acabaria por se licenciar também em Literatura Inglesa na Universidade de Queensland e após ganhar uma bolsa, fez o Mestrado focado na tragédia na literatura vitoriana.

  Em 2006, publicou o seu primeiro livro, O Segredo da Casa de Riverton, um sucesso literário, e a ele seguiu-se mais três livros, tendo o último sido publicado o ano passado. Casada com um músico jazz e mãe de dois filhos, Kate vive num palacete do século XIX em Brisbane.

  Terceiro livro de Kate Morton, As Horas Distantes foi publicado em 2010, esteve nomeado para Melhor Ficção Histórica no Goodreads e foiu traduzido para vinte e dois países.

  Uma carta perdida nos escombros do tempo. Palavras que não poderão ser esquecidas, segredos que terão de ser revelados, uma história que é muito mais do que aparenta. Meio século depois, um castelo envolto em mistério ainda tem muito que contar e há destinos envoltos nas brumas que virão finalmente ao de cima. Edie é arrastada para o passado, para as amarguras que ficaram, para os amores que nunca se realizaram. Ela é a chave para um mito, a única que poderá voltar a entrelaçar as vidas que foram separadas, a única para quem a verdade pode finalmente ser libertada.

  Este é o primeiro livro que leio de Kate Morton e uma semana depois de o ter lido ainda há resquícios das sensações que esta leitura me provocou. Kate é uma escritora exímia, alguém cuja escrita é belissimamente executada mas que não deixa de fluir, que cria mistérios densos e os desenvolve de uma forma pausada, que descreve com sentimento e perfeição. A narrativa, bem executada e pensada, lenta e delicada, onde cada momento e revelação têm o seu lugar, onde cada detalhe acaba por assumir uma grande importância, deixa-nos presos a cada acontecimento, a cada segredo. Não é uma leitura perfeita, houve uma parte em particular em que a história esteve um pouco parada e a autora perdia-se nas descrições por vezes, mas isso não retira a este livro a imensa beleza e magnetismo que ele acarreta. As passagens entre passado e presente fluíram naturalmente e cada peça do mistério que rodeia a família Blythe encaixa-se com delicadeza, criando uma história onde a nossa curiosidade é levada ao extremo até ao seu final surpreendente.

  Um castelo decadente, um livro e uma carta são os pontos de ligação desta história e dos vários segredos enterrados em Midlehurst, segredos esses que marcam toda a história e que levaram à uma cadeia de actos que para sempre condenaram e castigaram a família Blythe e quem os amou até ao fim das suas vidas. Neste relato tantas vezes triste, tantas vezes doce, vemos como o passado consegue limitar ou alterar por completo a personalidade de uma pessoa, como os sonhos podem ser desfeitos sem luta, como a dor e o medo podem ficar para sempre enraizados numa alma atormentada pelo que nunca devia ter visto ou ouvido. Ao longo desta leitura somos assombrados por expectativas não cumpridas, por pesadelos que se tornaram demasiado reais, pelas amarras que a dedicação pode criar, somos assim confrontados com verdades demasiado cruéis, com as camadas densas de que é feita a alma e o coração humanos.

  As sensações agarram-nos ao longo deste livro, a angústia e a esperança caminham lado a lado enquanto somos confrontados com as decisões, os acidentes e acasos que acabam por ligar as irmãs Blythe às restantes personagens, existindo uma aura de mito em redor em volta das três irmãs quase paradas no tempo e definitivamente no espaço. Se alguns segredos podem ser fáceis desvendados, há outros que nos atormentam até ao fim e, por vezes, esperámos que no meio de tanta mágoa tenha havido sorrisos de felicidade mas esta não é uma história feliz, é uma história sobre pesadelos, sobre derrota e loucura, tudo num ambiente por vezes fantasmagórico, por vezes maravilhoso, que tanto fez sofrer como conseguiu apesar de tudo fazer feliz. A memória, as recordações que vislumbrámos transformam o castelo. Ele pode ser assustador, pode ser decadente e infeliz, pode guardar nas suas paredes lembranças de dor e sangue mas também o tornam um lar, um local de compreensão e amor, um sítio que guarda risos e memórias felizes.

  Tal como o enredo, também as personagens estão bem construídas. Loucas, sensíveis, complexas, perdidas, elas tornam esta história um quadro onde as suas personalidades, sonhos e terrores, são os principais elementos e a verdadeira razão da existência deste livro. Se Edie é uma protagonista um pouco apagada, as irmãs Blythe são uma tempestade inesperada. Cada uma delas guarda à sua maneira um encanto, uma beleza de princesas prisioneiras que nunca foram resgatadas. São intemporais, belas e únicas, três presenças que nos assolapam com as suas vidas e segredos. Também a relação de Meredith com os seus acaba por nos conquistar e, se no início, sentimos um certo afastamento para com ela, acabámos por a compreender muito melhor ao longo da leitura.

  Um romance encantador e trágico, As Horas Distantes foi uma surpresa maravilhosa. Kate Morton conquistou aqui mais uma fã e espero ler em breve as restantes obras já publicadas em Portugal. 

6*

6 comentários:

  1. Respostas
    1. A sério? Porquê?=s Já leste algum dos outros?

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  2. Olá Patrícia:),
    curiosamente, este é o livro que gosto menos de Kate Morton. Os anteriores dela são simplesmente sublimes e quando li este esperava mais. Porém, ela é como dizes exímia. Tens mesmo de outros.

    Beijinhos*

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    1. Olá Jojo!
      Então tenho mesmo de ler os outros! Se calhar é por ter sido o primeiro que li dela que gostei tanto, se já tivesse lido os outros dois teria sido diferente, se calhar.

      beijinhos**

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  3. Esta autora é fabulosa! Tens de ler O Segredo de Riverton, eu amei. Ela é uma belíssima contadora de histórias, dá gosto entrar nos enredos dela.. :D
    Por falar nisso, já tenho saudades de ler algo dela.. espero que o novo romance dela seja publicado cá em breve!

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    1. É o próximo que tenho de arranjar *.*

      Isso é que era!!=D

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