domingo, 22 de setembro de 2013

Opinião - Agnes Grey

Título Original: Agnes Grey
Autor: Anne Brontë
Editora: Book.it
Número de Páginas: 286


Sinopse
 Agnes Grey é um retrato gritante do isolamento, estagnação intelectual e apatia emocional que rodeava muitas das governantas de meados do século XIX.

Uma novela em tom muito intimista, escrita a partir da experiência da própria autora, afirmou-se como um marco da literatura que lida com a evolução social e moral da sociedade inglesa.



Opinião

  É a mais nova das irmãs que tomaram de assalto a literatura inglesa do século XIX. É a menos romântica e a mais irónica das irmãs. E a mais esquecida. Anne Brontë nasceu em 1820 e viveu na paróquia de Haworth até ir trabalhar como preceptora aos 19 anos. A sua carreira literária, que inclui um livro de poemas em conjunto com as irmãs e dois romances, começou após o seu regresso a casa. Criança precoce, Anne era especialmente chegada a Emily, sendo ambas inseparáveis quase como gémeas, talvez daí que pareça quase um acaso do destino, Anne ter morrido cinco meses depois da irmã favorita cuja morte a havia afectado imenso. As suas últimas últimas palavras, “Tem coragem” foram para Charlotte, prestes a perder a terceira irmã no espaço de um ano.

  Agnes Grey foi publicado em 1847 e foi o primeiro romance de Anne. Baseado na sua experiência como preceptora, é considerado um retrato fiel das condições desta carreira mas não teve o mesmo sucesso imenso que o seu outro romance, The Tenant of Wildfell Hall.

  Depois de Emily se tornar uma das minhas autoras preferidas, depois de Charlotte me arrasar com Jane Eyre, chegou a hora de conhecer Anne, ou melhor, ler algo seu. O talento com as palavras era um dom de família, que as três irmãs Brontë partilhavam, isso é uma certeza que qualquer leitor que as conheça pode constatar. Tal como as suas irmãs, Anne tem uma escrita eloquente e cuidada, um jeito natural para demonstrar nas palavras o que ficou por dizer mas, ao contrário de Emily e Charlotte, Anne não é uma romântica mas sim alguém pragmático, com um sentido moral alto e que compreendia que apenas a experiência nos pode dar certos conhecimentos. Tem, aliás, um tom mordaz e irónico que não associámos às suas irmãs mas também Agnes Grey não é o estilo de livro que se possa comparar a O Monte dos Vendavais ou Jane Eyre pois estes são dois romances e o livro de Anne é um retrato auto-biográfico logo tem uma vertente realista que os livros das suas irmãs não partilham.

  Na forma de um diário, esta narrativa concerne a rotina de uma jovem preceptora que, tendo vivido protegida no seio da família na província, vai ter de aprender a conviver com uma sociedade que não está disposta a entender ou adaptar-se. Relato de uma profissão bastante usual no século XIX, Agnes Grey apresenta as vicissitudes e as alegrias dela bem como a forma como eram vistas as mulheres que educavam as meninas de estatuto mais elevado e é, exactamente por isso, que este livro é um clássico. Apesar de ser uma leitura que não me agradou tanto como as das outras irmãs Brontë, tanto pelo tom como pelo estilo de escrita pois não sou grande fã de diários, a verdade é que este livro é uma obra de extrema importância pois apresenta-nos detalhes de uma profissão que, apesar da sua importância, obrigava a que aquelas que a exerciam fossem tratadas não só como se tivessem um estatuto baixo como, muitas vezes, o seu papel era relegado pelas vontades e caprichos de pais e crianças. 

  Através da experiência de Agnes, apercebemo-nos de muitos pormenores interessantes sobre a educação inglesa de finais do século XIX. A forma como os pais largavam os filhos na mão de outrem mas procuravam exercer a mesma autoridade retirando as das preceptoras que deviam ensinar mas manter os mimos, a forma como as próprias crianças e jovens eram induzidos a pensarem-se superiores àquelas que os ensinavam e criavam, como as questões pessoais destas pessoas deviam desaparecer face às questões fúteis daqueles que as empregavam, são alguns exemplos apresentados pela voz de Agnes das experiências porque grande parte destas preceptoras passaram naquela época e que este livro retrata de uma forma realista e verídica e, se algumas vezes o livro chega a ser aborrecido, a verdade é que apesar de Agnes Grey ter uma parte romântica é nestas experiências que estão a grande importância deste livro que apresentou à sociedade inglesa a forma falsa e desinteressada como as suas crianças eram educadas, como as preceptoras acabavam por se verem isoladas numa casa cheia e como a intelectualidade desta sociedade ainda se encontrava bastante estagnada.

  Tal como a escrita, também as personagens de Anne são realistas, tendo muito senso-comum e moral que praticam conforme a sua educação e meio social. Penso que Agnes acaba por ir buscar muitas das características da autora apesar de me parecer muito diferente da personagem de Shirley que Charlotte baseou na sua irmã Anne mas isso será reflexo da forma como nós nos vemos de maneira diferente da que os outros nos vêem, tendo sido bastante interessante comparar ambas as personagens.

  Agnes Grey é assim um relato biográfico não só das experiências de uma autora como também de uma profissão. Uma obra de extrema importância que deve ser lida por todos os que se interessem pelo tema ou simplesmente pela sociedade inglesa desta época.

5*

2 comentários:

  1. A mim o que me surpreendeu neste livro foi o facto de ser tão irónico e divertido...Nenhuma destas características se encontra nas obras das irmãs, aliás Anne é mais parecida com Jane Austen, embora o seu humor não seja tão subtil. É uma pena que tenha morrido tão nova...Também ao contrário, por exemplo, de Jane Eyre que está um bocado datado, Agnes Grey é perfeitamente actual...Aqueles comportamentos femininos então, não mudaram nadinha. Se exceptuarmos alguns pormenores passava por um livro de hoje. Agnes é um pouco irritante ás vezes e podia haver melhor desenvolvimento de algumas partes, mas de resto...Fantástico.

    cumps

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    1. É verdade Sara, também me deparei muitas vezes a compará-la a Jane Austen e sim, Agnes Grey é ainda hoje um livro actual, prova que os clássicos não são os livros chatos e sem interesse que muitos julgam.

      Beijinhos e boas leituras

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