terça-feira, 10 de setembro de 2013

Opinião - As Serviçais

Título Original: The Help
Autor: Kathryn Stockett
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 464


Sinopse
Skeeter tem vinte e dois anos e acabou de regressar da universidade a Jackson, Mississippi. Mas estamos em 1962, e a sua mãe só irá descansar quando a filha tiver uma aliança no dedo.
Aibileen é uma criada negra, uma mulher sábia que viu crescer dezassete crianças. Quando o seu próprio filho morre num acidente, algo se quebra dentro dela. Minny, a melhor amiga de Aibileen, é provavelmente a mulher com a língua mais afiada do Mississippi. Cozinha divinamente, mas tem sérias dificuldades em manter o emprego… até ao momento em que encontra uma senhora nova na cidade.
Estas três personagens extraordinárias irão cruzar-se e iniciar um projecto que mudará a sua cidade e as vidas de todas as mulheres, criadas e senhoras, que habitam Jackson. São as suas vozes que nos contam esta história inesquecível cheia de humor, esperança e tristeza.
Uma história que conquistou a América e está a conquistar o mundo.


Opinião

  Kathryn nasceu e foi criada em Jackson, Mississípi num mundo onde os negros faziam parte do dia-a-dia de uma família. Demetrie foi a negra que a criou e aos seus dois irmãos, já estava na família desde a adolescência do pai de Kathryn e viria a morrer quando esta fez dezasseis anos. O seu primeiro romance, a obra que abanou os EUA e o mundo e que já é considerado um dos maiores sucessos literários dos últimos anos, As Serviçais, foi a forma que a autora arranjou de homenagear uma mulher que nunca esqueceu e é a resposta àquilo que nunca foi suficientemente crescida para lhe perguntar: Como era ser uma negra no Mississípi e trabalhar para uma família branca?

  Graduada em Inglês e Escrita Criativa pela Universidade de Alabama, Kathryn mudou-se para Nova Iorque onde trabalhou nove anos na publicação de revistas. Regressou ao Sul com o marido e a filha e está neste momento a escrever o seu segundo romance. As Serviçais foi publicado em 2009, foi traduzido para mais de 40 países e venceu seis prémios literários. Em 2011 chegou às salas de cinema onde também foi um sucesso tendo Olivia Spencer, a Minny Jackson, ganho o Óscar para Melhor Actríz Secundária. 

  Desde que foi publicado que tenho tido este livro debaixo de olho e agora que finalmente o li tenho uma imensidão de emoções e sei que poucas palavras puderam fazer jus ao poder, à importância, ao que este livro realmente é. Esta história é dura, cruel, arranha-nos a alma e a consciência, transporta-nos para um mundo inconcebível, para uma realidade angustiante que nos enfurece e transcende mas também é uma história de coragem e esperança, de uma beleza ímpar, uma história que nos comove e nos orgulha. Kathryn escreve há um ritmo lento, delicado e furioso que me recorda o belo sotaque sulista de que tanto gosto de tal forma que quando leio uma palavra parece que a consigo ouvir na minha cabeça. É impressionante como de forma subtil, através de suposições e imagens que nunca nos descreve, a autora nos consegue descrever situações onde nunca vemos a violência mas a sentimos bem no fundo do coração. É impressionante como através de um tom baixo e humilde conseguimos sentir a fúria e a revolta. É impressionante como em momentos de indiferença e desprezo podemos sentir o amor, a tempestade de emoções que se escondem por trás das palavras.

  Há uma frase que me marcou, uma frase que demonstra a verdade deste livro. Aibilee, uma das personagens negras diz que as senhoras brancas são capazes de mais crueldade que os homens brancos, que as suas teias se estendem mais do que a violência dos homens e é verdade, a mais pura das verdades. Esta história não precisa de violência explícita nem de momentos de crueldade expressa pois é nas atitudes, nos sorrisos falsos, por trás da boa educação e das roupas finas que se esconde a dureza, o terror das criadas negras. Num enredo que se desenrola como um dia quente assistimos à dedicação daquelas que ainda não estão demasiado magoadas, à revolta das que já estão fartas. Vemo-las educar e amar as crianças brancas para depois as perderem para o preconceito, vemo-las ajudar, limpar, confeccionar sem receberem uma verdadeira palavra de apreço, vemo-las serem parte de uma família sem serem realmente vistas. E isto doí, quebra-nos, envergonha-nos, enche-nos de náuseas e lágrimas pela injustiça que um ser humano pode receber por causa da cor da pele.

  E depois temos o outro lado, o das senhoras brancas que não vivem sem as suas criadas e amas mas que não as veem, que as ignoram, que as repelem, que as adoram mas que não percebem o que as separa ou que procuram algo melhor para elas. Através de quatro personagens femininas vemos um pouco de cada um destes lados, aprendemos como a sociedade via estes supostos inferiores, como lidava com as suas exigências, como vivia com os seus preconceitos e o que acabámos por perceber é que existe uma estagnação, um hábito, uma pouca vontade de mudar e um medo enorme das alterações. Cada uma destas mulheres provoca-nos algo. Desde raiva à revolta, desprezo ou pena, orgulho e carinho, cada uma delas suscita-nos algo, tem a sua história, a sua forma de lidar com o seu pequeno mundo, ensinando-nos também algo mesmo que não o percebamos à primeira.
Mas há algo que este livro também descreve na perfeição, a alma humana, o ser do ser humano, aquela dualidade que temos e que às vezes esquecemos. Uma boa rapariga pode ser má mãe, uma pessoa cruel pode amor com intensidade, alguém de valores elevados pode ser frágil, uma beleza intemporal pode ser insegura, um furacão também pode ter medo. Ninguém, independentemente da cor da pele, é só isto ou aquilo e, ao longo desta narrativa, é algo que percebemos demasiado bem, que compreendemos como nunca havemos de confessar.

  Num enredo que começa lento mas que sem nos apercebermos nos vai apanhando num rodopio, acabámos por aprender algo muito importante: que os sentimentos, os acontecimentos são intemporais, que passe o tempo que passar, sentiremos sempre como nosso as dores, as lágrimas e o sangue dos inocentes que viveram sobre o jugo dos preconceitos, da lassidão, da indiferença.

  As Serviçais é um livro que jamais esquecerei, que li de uma assentada, que me marcou como só um grande livro o faz. É uma história que nos deixa sem palavras, que nos pesa na consciência, que nos ilumina o coração.

7*

1 comentário:

  1. Olá,

    Sem duvida um livro marcante e que nos ficam para sempre marcados na memória, adorei ;)

    Bjs

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