quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Opinião - Dalila

Título Original: Delilah
Autor: Eleanor de Jong
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 280

Sinopse
 Na antiga Terra Santa, israelitas e filisteus estão envolvidos num amargo conflito. Sansão - um adversário poderoso e invencível - foi elevado a símbolo do heroísmo israelita e os vigorosos filisteus estão desesperados para descobrir o segredo do seu poder.
Dalila - desejável, bela, sedutora, determinada e temerária - está cansada da vida aborrecida de donzela recatada. Ambiciosa, quer mais da vida e é atraída por uma proposta irrecusável: descobrir onde reside o poder de Sansão. Decide arriscar, pois o jogo da sedução é algo que a alicia. Mas este não é um jogo fácil como ganhar ou perder. Enredada na perigosa missão que teceu, Dalila faz uma descoberta impressionante, algo que nunca teria imaginado: amar e ser amada! Mas uma sequência de acontecimentos foi posta em movimento e só um milagre poderá mudar o curso da História… Dalila descobre o segredo da força de Sansão, mas pagará um preço muito elevado: a morte de quem ama.
Deixe-se seduzir por um romance tão encantador quanto a própria Dalila. Perfeito para os admiradores de biografias históricas.

Opinião

  Filha de académicos, Eleanor cresceu entre a Europa e os Estados Unidos. Estudou História e Política e neste momento vive com o companheiro em Londres. Dalila, o seu primeiro romance, foi publicado em 2011 e está traduzido em três línguas. Para além deste, Eleanor escreveu Jezebel, ainda não traduzido no nosso país.

  Em pequena de todas as histórias do Antigo Testamento a que mais me impressionou e ficou marcada na minha memória foi a história de Sansão e Dalila. Já naquela altura o facto de Sansão ter sido quebrado devido à confiança e ao amor que dedicou a Dalila que o entregou sem qualquer piedade mexeu comigo e, por qualquer razão, nunca me pareceu ser suficiente o que a história contava. Durante anos, quando pensava nesta história, pensava nas motivações de Dalila, no que ela sentiu, se ela se arrependeu. Quando ouvi falar neste livro, tive a certeza que tinha de o ler pois mesmo sendo um romance, parecia que ele poderia ter as respostas para as dezenas de perguntas que eu guardava.

  Dalila é um romance intenso, uma ode aos tempos antigos, à fé e ao amor. Com uma escrita cuidada, vivaz e sedutora, Eleanor devolve a vida e a cor a uma das histórias mais infames alguma vez contadas dando voz e sentimentos àqueles que a protagonizaram. Numa versão mais romanceada, a autora mantém a estrutura original do conto acrescentando-lhe, o que para mim sempre lhe faltou, a alma e o ser do Homem, as suas motivações e os seus temores. Este livro é uma versão mais humana, mais colorida, talvez mais romântica mas não mais bonita. As lições a aprender com esta história continuam a ser as mesmas, o fim fatal mantém-se, a traição de Dalila não é desculpada. Mas, ao menos, deixa aqueles que como eu sempre pensaram que tinha de haver mais com a sensação que finalmente podemos acreditar no perdão e no arrependimento. 

  Através de descrições belissimamente detalhadas, podemos imaginar com todos os pormenores os caminhos que Dalila percorre. Desde às roupas aos tons das cores, dos cheiros e sons do mercado, da taberna ou de uma casa mais rica, das vinhas ao deserto, tudo é descrito com tanta cor, com tal detalhe que é impossível não nos sentirmos deslumbrados coma vívida imaginação da autora. Para além do ambiente, também rituais de ambas as culturas, israelita e filisteia, desde o matrimónio às orações ou aos festivais, foram eximiamente descritos, permitindo-nos visualizar duas culturas no seu todo e conhecer as semelhanças e diferenças. O conflito que dá azo à tragédia, entre israelitas e filisteus é, aliás, apresentado com o máximo cuidado e se no início nos é dado mais o ponto de vista dos filisteus, ao longo do livro vamos conhecendo as motivações dos israelitas. A autora teve aliás o cuidado de não tornar nenhum dos povos vítimas ou opressores, apresentando tanto defeitos com qualidades bem com as razões de cada um para não se entenderem. Para além disso, vários temas são tocados, desde a cultura vinícola a que a família de Dalila se dedica, a religião de cada um dos povos, às formas de tentativas de reconciliação, ao modo de vida israelita e como conviviam em sociedade, dando-nos uma imagem clara da vida diária na Terra Santa.

  Sem Dalila esta história não poderia ser a mesma e a Dalila deste livro é uma criatura que fascina, que encanta, que parece aquilo que é, uma personagem marcante e sedutora. Existe nesta Dalila tanto de sensualidade como de inocência, tanto de fiel como de traidora, tanto de arrogante como penitente. Ela nunca é apenas uma espiã. É ambiciosa sim mas também aprende a ouvir, a amar, a mudar aquilo em acredita. Existe uma dicotomia nela que nos faz acreditar no seu arrependimento, que nos faz, mesmo nos seus piores momentos, a compreendê-la. Esta Dalila é humana, simplesmente. Já Sansão é sempre uma personagem algo distante. Primeiro assustador e bruto, depois apaixonado e sempre complacente mas sempre com a aura de alguém que não é como o mais comum dos homens. A forma como a autora conseguiu imprimir esta aura heroica, quase divina em Sansão, é impressionante, como se nos quisesse mostrar que por mais que tenha suavizado Dalila ela vai ser sempre a pecadora e ele o escolhido.

  De resto, as restantes personagens foram caracterizadas de forma marcante, tendo cada uma delas um papel a desempenhar na narrativa. Com elas aprendemos que o ser humano tem sempre uma motivação. Seja o poder, a luxúria ou a fé, cada decisão é governada por um sentimento que comanda todos os outros. 

  Dalila é um livro que nos fascina, que nos arrebata. É um relato impressionante de quão cego pode ser o amor e quais os vis caminhos da ambição que podem levar à perdição ou ao arrependimento. É um romance para os que adoram esta história, para os que não a conhecem ou para quem não se contenta apenas com a história original. 

6*

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