sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Opinião - O Homem Pintado

Título Original: The Painted Man
Autor: Peter V. Brett
Editora: ASA
Número de Páginas: 606

Sinopse
 Por vezes existem boas razões para se ter medo do escuro. Arlen vive com os seus pais na sua quinta isolada a meio dia de viagem do pequeno povoado de Tibbet’s Brook. Mas no mundo de Arlen quando a noite cai uma estranha névoa começa a erguer-se do chão, uma névoa que promete uma morte terrível para todos aqueles que sejam suficientemente loucos para enfrentar a escuridão, pois demónios esfomeados, que não podem ser feridos por armas comuns materializam-se na névoa para se alimentarem dos seres vivos. Quando a noite cai as pessoas não têm outra alternativa se não esconderem-se nas suas casas cuidadosamente guardadas com símbolos mágicos de protecção que são a única coisa capaz de manter os demónios à distância até que chegue o nascer do sol. Nesta história três jovens irão oferecer à humanidade uma última e fugaz hipótese de sobrevivência.

Opinião

  O Hobbit e o nº 162 de X-Men mudaram a vida de Peter V. Brett para sempre. Entre livros de fantasia e banda desenhada, Peter começou por tentar tornar-se artista de banda desenhada mas devido à falta de jeito, começou a escrever fantasia e, mesmo sendo o seu primeiro livro algo como horrível, continuo a insitir. Depois veio a faculdade e com ela Dungeons & Dragons, esgrima e raparigas. Ah, e claro, o curso em Inglês com minor em História de Arte. Geriu uma loja de banda desenhada, trabalhou na publicidade farmacêutica e quase, quase se esqueceu de escrever mas o seu quarto livro viria a torna-lo um autor de sucesso, permitindo-lhe finalmente viver o seu sonho a tempo inteiro.

  O Homem Pintado é o primeiro volume de uma saga denominada Ciclo A Noite dos Demónios. Publicado em 2008, está traduzido para catorze línguas. 

  Depois de anos para pegar neste livro finalmente li-o e, sim, arrependi-me do tempo que demorei para o fazer pois O Homem Pintado é demoniacamente fantástico. Não sei se é de já não ler fantasia épica de novos autores há algum tempo mas soube espectacularmente bem ler este livro, tão bem que o li em dois dias tal era a saudade de ler o género e tal a qualidade da escrita e da imaginação do autor. Complexo e obscuro, o primeiro volume da série de Peter V. Brett apresenta um mundo vasto e condenado que nos alicia desde a primeira página, um mundo onde o terror e a obsessão andam de mãos dadas, um mundo onde um acto de cobardia pode mudar uma criança de forma irreversível, um mundo onde os mitos caminham à luz do dia. Através de uma escrita minuciosa e crua, por vezes brutal e introspectiva, Brett incide na sua história uma poderosa carga de coragem, terror e obsessão que nos agarra de forma voraz.

  Com um enredo comparável há alguns mas diferente de todos, este livro é uma demanda com a típica trindade de heróis, heróis que para além de enfrentarem as noites mortais têm também de enfrentar os seus próprios obstáculos. De forma detalhada, conhecemos os três protagonistas a partir do momento de viragem, ou seja, o acontecimento que lhes muda as vidas para sempre e, a partir daí, assistimos ao seu crescimento, às suas decisões, à forma como aquele momento lhes alterou a vida para sempre. Através deles conhecemos ainda a vasta geografia deste mundo, a cena política de cada cidade, a organização social de cada vila perdida, a forma como cada povoação enfrenta ou não os demónios que durante a noite os atormentam bem como os magísteres a que cada um deles se dedica. Apesar de ser o típico volume de introdução das longas sagas, este livro acaba até por ter um desenvolvimento bastante rápido e se é detalhado é também rico em acção e movimento, o que torna a leitura não só voraz como sempre cativante.

  Como primeiro volume este livro apenas nos dá uma pequena ideia da complexidade e poder que esta série terá mas de uma coisa podemos ter a certeza, nada é fácil ou simples neste mundo. Os protagonistas têm de passar por todo o tipo de provações, são testados, tentados até ao limite das suas forças até a morte estar quase demasiado próxima mas com cada lição aprendem, endurecem, ganham uma coragem e força, talvez até uma certa indiferença ou obsessão, que lhes permitirá tornarem-se mais do simples heróis. Ao longo do livro podemos sentir uma certa aura de mito, de divino, que ganha contornos mais concretos quando assistimos à transformação de Arlen e que nos permite perceber que a partir daqui esta saga apenas pode melhorar e que as aventuras ainda agora começaram.
Também a caracterização deste mundo ajuda e muito à fantástica aura que ele tem. Desde os demónios, que consistem em vários tipos e tamanhos e que acrescentam uma malvadez e terror ao livro que o torna ainda mais interessante, às guardas, tão detalhadas e vastas, com poderes inconcebíveis ao próprio poder da religião em alguns locais que tanto levam a combater acerrimamente os demónios como a esperarem a morte como um castigo, tudo foi feito e pensado para agarrar o leitor da primeira à última página. 

  Quanto às personagens, são bem caracterizadas e apresentadas. Numa saga às vezes as personagens são tantas que podemos esquecer-nos de algumas mas penso que com esta não haverá esse risco, pois todas são inesquecíveis e tiveram ou têm um papel a desempenhar. De todas, a que gostei mais foi Leesha e aquela que para mim é a mais poderosa é sem dúvida Arlen. Leesha passa de uma menina insegura a uma mulher que sabe o que quer e não se prende pelas convenções apesar de manter uma certa doçura e fragilidade e penso que ainda terá muito por onde crescer. Arlen porque muda do dia para noite e é o típico caso em que a coragem e os sonhos se tornam uma obsessão tal que nada mais importa mas, no fundo, penso que o rapazinho que conhecemos no início do livro ainda lá está.

  O Homem Pintado é um início prometedor, um livro com uma grande carga de fantasia e poder, de coragem e escuridão, de lendas vivas que, sem dúvida se pode comparar às melhores sagas de fantasia. Peter V. Brett conseguiu com este livro mostrar-me que ainda há mais na Fantasia para descobrir do que alguma vez eu poderia imaginar e deixou-me rendida ao seu mundo demoníaco.

6* 

1 comentário:

  1. Olá,

    Ainda bem que gostaste e só te posso garantir que o seguinte será ainda melhor, seguramente ;)

    Bjs

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