quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Opinião - Memórias de Um Amigo Imaginário

Título Original: Memoirs of an Imaginary Friend
Autor: Matthew Dicks
Editora: Planeta Manuscrito
 Número de Páginas: 328


Sinopse
Um romance perfeito para quem já teve um amigo – verdadeiro ou não.
Matthew Dicks inspirou-se no imaginário de uma criança autista que conheceu e criou uma calorosa história de amor e lealdade, narrada por uma personagem improvável: Budo, o amigo imaginário de Max, o menino autista.
Budo é uma voz original e inesquecível, pois é capaz de falar sobre a vida, o amor, a amizade, a infância, a morte, e a paternidade, como uma personagem poderosa e inteligente dentro da cabeça de uma criança autista.

Mas os amigos imaginários só podem existir desde que os seus amigos reais continuem a acreditar neles. Mas um dia Max deixa de acreditar!
E quando Max fica em perigo, mesmo tendo a criança deixado de acreditar nele, Budo arrisca tudo, incluindo a sua existência, para salvá-lo, ou melhor resgatá-lo do que todos à sua volta querem que Max seja e que nunca poderá ser.


Opinião

  Matthew cresceu numa cidade pequena de Massachusetts com dois irmãos, dois perdidos mas reencontrados meio-irmãos, uma mãe adorável e um padrasto malvado. Foi escuteiro, saltador de vara, flautista e baixista e um orgulho membro do corpo de tambores da escola. Ah, e morreu duas vezes aos 18 antes de ser reanimado pelos paramédicos. Com a mesma idade deixou a cada onde viveu para viver de maus trabalhos até que aos 23 foi morrendo de vez e, finalmente, ganhou juízo e foi para a faculdade.


  Graduou-se em Artes Liberais, Inglês e em Ensino e tornou-se professor, profissão que exerce até hoje. Também tem e gere uma companhia de DJ que actua em casamentos. Em 2006 casou-se e hoje é pai de duas crianças. Escreveu o primeiro livro dois anos depois e está agora a trabalhar no seu quarto livro bem como em vários projectos. No tempo livre, ouve música, atende telefonemas e dedica-se ao golfe, no qual é um desastre, e ao basquetebol em que é muito melhor.


  Memórias de Um Amigo Imaginário é o seu terceiro trabalho e o de maior sucesso. Foi publicado em 2012 e está traduzido para catorze línguas.


  Há livros complexos que tendem a ser cheios de subtilezas e reviravoltas, de momentos elucidativos através de palavras caras e expressões eloquentes mas às vezes basta um livro simples, um livro inocente, quase infantil, um livro cuja mensagem nos toque e nos marque profundamente, um livro que mude a nossa forma de pensar e que nos ensine algo importante. Memórias de Um Amigo Imaginário é um desses livros, uma história desenvolvida com simplicidade através de uma escrita fluída, terna e comovente que nos alerta para a necessidade de ter alguém em quem nos apoiarmos, de sentirmos segurança, de não estarmos sozinhos. Contada do ponto de vista de um ser imaginário, um ser com as dúvidas e o conhecimento da criança que o imaginou, esta é uma história que nos abala quase sem darmos conta, é uma história cujo final nos deixa com um sorriso banhado a lágrimas.


   Primeiro fala-nos da amizade, do seu poder, como dois seres se unem de tal forma pela compreensão e companheirismo que se entendem como se vivessem na pele um do outro. Da forma como este sentimento nos pode proteger e enfraquecer, de como precisámos de alguém sempre ao nosso lado nos bons e maus momentos, sejam reais ou não. Fala-nos do crescimento, daquele momento em que se ganha confiança, do momento em que deixámos de ser indefesos para nos sabermos mostrar, aquele momento em que finalmente somos nós e só nós que tomámos as rédeas de quem seremos e queremos ser. E depois, fala da diferença, da incompreensão, de como a inocência pode ser malvada e injusta. Max vive num mundo muito seu, um mundo que nem todos compreendem ou aceitam. É uma criança especial mas que os outros veem quase como inválido, com um ser à parte. E depois há Budo, o seu amigo imaginário, aquele que o entende como ninguém.


  Budo é o narrador deste livro. É por ele que sentimos e vemos cada momento. Através dos seus olhos conhecemos a realidade dos amigos imaginários, como são tão importantes no crescimento de uma criança e como são tão ténues na sua existência. Budo apresenta-nos todo o tipo de amigos imaginários, tão diferentes quanto a imaginação e o conhecimento de a criança que os imaginou, mostra-nos a dor ou a alegria de já não serem necessários, o amor que dedicam àqueles que acompanham momento a momento. Com ele, aprendemos o verdadeiro valor da amizade, a apreciar as pequenas coisas da vida, a compreender a coragem, como às vezes temos de tomar decisões difíceis mesmo que nos magoemos para salvar outrem. Budo é a voz, a alma, aquele que nos comove indefinidamente.


  Com um enredo quase básico, Matthew mostra-nos como funcionam as relações familiares, como a compreensão e o amor em casa são importantes mas também a importância da vida escolar na formação dos mais pequenos, o quanto necessitam de se sentirem bem e seguros nesta segunda casa. Mostra-nos como perdas irreparáveis podem mudar uma pessoa, como podem afectá-la até ao limite, como dores pessoais podem prejudicar terceiros. 


  As personagens, tão suaves acabam por cada uma marcar fortemente a narrativa e em cada um deles podemos rever-nos ou rever alguém querido. Cada uma tem uma forma de agir e pensar, cada uma marca Budo e Max à sua maneira e todas elas tocam-nos bem no fundo da nossa alma. Mas são os amigos imaginários a grande presença, os verdadeiros heróis desta história pois mesmo sabendo que um dia perderam o amor do que deles precisam continuam a amá-los, a protegê-los, a salvá-los. 


  Comovente, único, brilhante. Assim é Memórias de Um Amigo Imaginário, uma história que não deixará ninguém indiferente e que mostrará que ainda podemos aprender algo e que nos deixará sem palavras e com o coração cheio de todas as coisas boas.


 7*

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