sábado, 26 de outubro de 2013

Opinião - Os Adivinhos

Título Original: The Diviners (#1 The Diviners)
Autor: Libba Bray
Editora: ASA
Número de Páginas: 580


Sinopse
Evie O'Neill foi exilada da sua monótona e pacata cidade natal e enviada para as agitadas ruas de Nova Iorque - e fica radiante! Nova Iorque é a cidade dos bares clandestinos, das compras e dos cinemas! Pouco depois, Evie começa a andar com as glamorosas «Ziegfield Girls» e com atraentes carteiristas. O único problema é que Evie tem de viver com o seu tio Will, curador do Museu Americano de Folclore, Superstição e Ocultismo - também conhecido como «O Museu dos Arrepios», homem com uma pouso saudável obsessão pelo oculto.

Evie receia que ele descubra o seu segredo mais sombrio: um poder sobrenatural que até ao momento só lhe causou problemas. Porém, quando a polícia encontra uma rapariga morta que tem um estranho símbolo gravado na testa e Will é chamado ao local, Evie percebe que o seu dom pode ajudar a apanhar o assassino em série.

Quando Evie mergulha de cabeça numa dança com um assassino, outras histórias se desenrolam na cidade que nunca dorme. Um jovem chamado Memphis é apanhado entre dois mundos. Uma corista chamada Theta anda a fugir do seu passado. Um estudante chamado Jericho esconde um segredo chocante. E sem que ninguém saiba, algo sombrio e maligno despertou.


Opinião

  Martha Elizabeth nasceu no Alabama e escreveu a sua primeira história aos onze anos, história que a mãe guarda até hoje. Aos dezoito anos, teve um grave acidente de viação e perdeu o olho esquerdo e parte da cara, tendo sido submetida a várias cirurgias para a reconstruir. Aos vinte e seis anos mudou-se para Nova Iorque com seiscentos dólares dentro do sapato e a bola de cristal da avó debaixo do braço e queria ser a próxima grande dramaturga americana. Das cinco peças que escreveu, três foram a cena mas parece que não eram grande coisa. Trabalhou em publicidade e entretenimento, casou em Florença e escreveu romances, incluindo um sobre amores de unicórnios. Finalmente, em 2003 publicou o seu primeiro livro, Uma Grandiosa e Terrível Beleza. Depois disso escreveu seis livros e participou em dez antologias. Gosta de História, pedicure, do Outono e comboios. Detesta bonecas, palhaços e maus filmes de terror. Apresento-vos Libba Bray.


  Os Adivinhos é o seu sexto livro e o primeiro de uma nova trilogia cujo segundo será publicado para o ano. Venceu um prémio, foi nomeado para outros dois, foi traduzido para italiano, polaco, português do Brasil e agora para a nossa língua. Foi publicado o ano passado.


  Desde que li Uma Grandiosa e Terrível Beleza que Libba Bray se tornou uma das minhas autoras de eleição pelo seu estilo único, pelo seu humor sagaz, pelas suas histórias repletas de sombras, mistérios e esoterismo mas nunca em momento algum, por mais que tenha ansiado por este livro, suspeitei o quão espectacular, o quão fantástico ele poderia ser. Os Adivinhos é aquele livro inesperado, aquele livro que nos agarra, que nos puxa para dentro da sua história com uma tal impetuosidade que torna impossível resistir-lhe. A escrita de Libba, de si única e original, diferente de tudo o que possam imaginar, evidencia-se ainda mais nesta história, tornando-a uma mistura perfeita entre divertida e assustadora, entre brilhante e sombria.


  O maior elogio que lhe posso fazer é que respira-se anos 20 destas páginas. O encanto está nos detalhes mais simples, na descrição das actividades mais corriqueiras como nas mais estranhas, nas expressões que as personagens utilizam, notando-se que houve não só pesquisa como um grande cuidado em retratar-se fielmente a essência dos loucos anos 20. A Lei Seca, os clubes, o jazz, a poesia, o cinema, os cabelos e roupas, as apostas está tudo aqui bem como as seitas, a religião, o preconceito, o bom e o mau, tudo isto é o que encontrarão neste livro.


  E depois temos a grande variedade de cultos e rituais que a autora utiliza para a parte sobrenatural da trama. Apoiando-se na variedade de culturas da América desta época, a autora descreve as simbologias e as crenças, a forma como se misturam, como vão tomando conta da vida moderna tornando-se algo banal e desacreditado até se tornar um passatempo estranho. Também a forma como a religião se torna obcecada nesta época e como o paganismo começa a regressar em força são salientados ao longo da trama, tendo um grande peso nela.

  Com um enredo que desliza na perfeição entre o terror e o riso, entre a beleza e o horror, o racional e o oculto, podemos encontrar uma história que se adensa a cada página. O que parece um enredo simples, não o é de todo. Por trás de assassinatos relacionados com o sobrenatural, esconde-se algo mais, algo que vamos pressentindo ao longo da leitura por palavras subtis, acontecimentos estranhos, coisas de que ninguém fala, personagens cuja presença nem sempre clara, tudo isto, aguça-nos a curiosidade de uma forma mórbida, tudo isto nos deixa pistas que nos fazem devorar cada acontecimento com um olhar mais perspicaz e uma voracidade tenaz. Cheia de segredos, poderes estranhos e profecias, esta narrativa não é apenas o que está a vista, é algo maior, mais complexo e obscuro que nos dará um prazer enorme de desbravar. A aura desta história é efervescente como as bolhas de champanhe rodeada de uma negritude de horror e macabro que a tornam não só interessante mas consegue ser perfeitamente equilibrada.


  E como se tudo isto não bastasse, as personagens deste livro são o cúmulo do soberbo. Adoro as personagens da Libba, a forma como são boas e más, como tanto são bondosas como têm laivos de malvadez e este livro não foi excepção. Da louca Evie à misteriosa Theta, da doce Mabel ao sedutor Sam, do tio distraído ao assistente lindo e calado, todas as personagens deste livro são po-si-ti-va-mente deliciosas. E depois há aquelas personagens que agora podem não nos dizer nada mas que guardam sem dúvida grandes surpresas para os próximos livros. 


  Libba Bray volta em grande às nossas estantes com um livro onde esoterismo, religião, alegria e horror se misturam de forma perfeita para criar uma obra que não vai deixar ninguém indiferente. Os Adivinhos é um livro a não perder pois garanto-vos surpresas não vos vão faltar e, assim que o agarrarem, não vão querer outra coisa porque ele é viciante da primeira à última linha.

7*

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