sábado, 29 de junho de 2013

Opinião - Anna e o Beijo Francês

Título Original: Anna and the French Kiss
Autor: Stephanie Perkins
Editora: Quinta Essência
Número de Páginas: 288

Sinopse
 Anna Oliphant tem grandes planos para o seu último ano em Atlanta: sair com a melhor amiga, Bridgette, e namoriscar com um colega no cinema onde trabalha. Por conseguinte, não fica muito contente quando o pai a envia para um colégio interno em Paris. As coisas começam a melhorar quando ela conhece Étienne St. Clair, um rapaz deslumbrante - que tem namorada. Ele e Anna tornam-se grandes amigos e as coisas ficam infinitamente mais complicadas. Irá Anna conseguir um beijo francês? Ou algumas coisas não estão destinadas a acontecer?


Opinião

  De cabelo azul ou vermelho e fanática por beijos (a sério, não acham que os filmes e livros têm poucos beijos??) e homens de sotaque britânico, Stephanie tem já uma longa relação com livros. Vendeu livros, foi bibliotecária e hoje é escritora de livros para jovens que os adultos também podem ler. Em 2010 começou a aventura com autora publicada com o primeiro livro da sua trilogia, Anna e o Beijo Francês, publicado em doze países e que tem conquistado inúmeros fãs, existindo uma multidão completamente desesperada à espera do terceiro livro que só sairá em 2014. 

   Apesar de só ter estado em Paris um mês e falar francês de uma forma péssima, Stephanie decidiu escrever um livro nesta cidade porque teve um sonho. Sim, um sonho onde um lindo rapaz de nome francês e sotaque britânico estava sentado nas escadas do Panteão e ela pura e simplesmente não lhe conseguiu resistir.

  Casada com o melhor amigo, Jarrod, Stephanie vive em Asheville, Carolina do Norte numa casa centenária cujas divisões estão pintadas com as cores do arco-íris, pois parece que ela gosta mesmo de cores, por isso ela deve adorar a nossa capa. Ah, com eles vive também Mr. Tummus, o gato.

  E se o teu último ano de secundário fosse não noutra cidade mas noutro país? Um país com uma língua que não fazes a mínima ideia como se fala, com uma cultura de que não conheces praticamente nada e cuja comida ouviste dizer, é muito requintada mas pouco satisfatória? Longe de tudo o que conhece, da família e dos planos fantásticos que tinha para o seu futuro próximo, Anna é deixada sozinha em Paris, cheia de saudades de casa e com medo do ano solitário que se avizinha mas rapidamente consegue um grupo de amigos e, nesse grupo, está Étienne, o americano internacionalizado super giro. Ao longo de um ano cheio de peripécias, loucuras, discussões e lágrimas, Anna vai descobrir uma lição muito importante. Que casa não é um local mas onde as pessoas que realmente importam estão e, que o primeiro amor, é muito mais complicado e belo do que ela imaginava.

   Quem olha para este livro pode pensar que não precisa de o ler para saber o que ele é mas Anna e o Beijo Francês é uma autêntica caixa de surpresas, cheia de doces, cores e magia das emoções que irá surpreender-vos e mostrar que o melhor está nas coisas mais simples, nos gestos mais pequenos e nos sentimentos mais sinceros. Stephanie consegue através de um enredo simples e fluído criar algo fantástico, puro e doce que nos enlaça nas suas palavras, que nos aconchega e faz sonhar, rir, acreditar. Pelas ruas de Paris, nalguns locais emblemáticos ou em sítios típicos da cidade, percebemos que Paris não é só a cidade mais romântica do mundo mas também um local onde todos os dias se aprende, onde todos os dias descobrimos uma surpresa mais brilhante que a do dia anterior. Com um talento e um jeito que só quem ama a vida e o poder dos gestos pode ter, Stephanie leva-nos numa viagem de amizades, tensões familiares, primeiros amores e sonhos por conquistar onde a espontaneidade dos gestos está sempre presente, onde os medos podem esconder desejos, onde a camaradagem está numa palavra, num sorriso. 

  De uma forma deliciosa, romântica e inocente, este livro fala-nos daquele momento em que a inocência começa a ir-se, daquele momento em que os nossos actos passam a ter consequências, daquele momento em que a vida ganha múltiplas cores intensas que antes não estavam lá. Através de momentos em que a vida transpira e as mudanças ocorrem, de descrições maravilhosas que nos deixam lembranças etéreas, vivemos a força, a magnitude de um primeiro amor. De um amor que nasce da amizade, das provocações, das preocupações, do companheirismo. De um amor que vem da vontade de conhecer cada entoação, cada gesto, cada cheiro, cada tique daquela pessoa que virou o nosso mundo do avesso e transformou os nossos sonhos. Um primeiro amor de partilhas de momentos cheios de riso, de solidariedade nos piores, de tensão a medida que os sentimentos mudam e aumentam.

   Mas não só de amor nos fala este livro. A amizade, tão essencial nesta altura da nossa vida, em todas as suas diferentes formas também está presente. Aquele sentimento que nos leva a zangarmo-nos com fúria desmedida, a preocupar-nos histericamente, a fazer coisas idiotas e únicas. Da família, o núcleo de protecção que muitas vezes não o é. As diferentes relações entre mães, filhos, pais e irmãos, o amor e dedicação, a indiferença, a preocupação e as exigências de quem cria, de quem foi criado, o que se espera da palavra família e o que ela muitas vezes é. 

  E depois temos o clima boémio e elegante de Paris. As ruas cheias de cheiros e texturas, os edifícios imponentes e antigos, a história entrelaçada com amor, alegria e irreverência que nos são descritas de forma tão soberba quanto a sensação de estar sozinho porque a solidão também faz parte desta história. Estarmos sozinhos num país diferente sobre o qual nada conhecemos, estarmos sozinhos e longe de tudo o que amámos, estarmos sozinhos contra as vicissitudes da vida, estarmos sozinhos nos nossos sonhos e anseios, estarmos sozinhos na nossa forma de pensar. Porque a solidão também faz parte da vida e é por ela que procurámos uma luz, um gesto, um sorriso, uma palavra. É por ela que querem os lutar, desejar, quebrar. Simples? Não, este livro afinal não é assim tão simples, só que todos nós já conhecemos estas sensações.

  Para além de um enredo muito bem construído, são as personagens que nos fazem devorar este livro com uma satisfação latente. Anna é um encanto tal que até lhe posso perdoar os seus poucos conhecimentos de História. É uma menina crescida que não deixa de fazer asneiras e de aprender com elas, é uma menina-mulher que nos enternece e que já fomos uma vez na vida. Étienne, esse, é uma tentação, um doce pelo qual já todos nos quisemos apaixonar, um rapaz que delicia e nos quebra. E depois, temos um grupinho de amigos diferente e fantástico que os acompanham em todos os momentos e que nos fazem lembrar alguém e sorrir a cada momento.

  Stephanie conquistou-me logo, à primeira palavra e Anna e o Beijo Francês tornou-se um daqueles livros que mais do que nos fazer suspirar e deixar com um sorriso enorme e um brilho nos olhos, que irá ser passado entre gerações quando dúvidas aparecerem e a inocência conhecer as cores intensas do amor.

6*

Podem encontrá-lo aqui

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Opinião - Ligeiramente Casados

Título Original: Slightly Married (#1 Bedwyn)
Autor: Mary Balogh
Editora: ASA
Número de Páginas: 336

Sinopse
 Como todos os Bedwyn, Aidan tem a reputação de ser arrogante. Mas este nobre orgulhoso tem também um coração leal e apaixonado - e é a sua lealdade que o leva a Ringwood Manor, onde pretende honrar o último pedido de um colega de armas. Aidan prometeu confortar e proteger a irmã do soldado falecido, mas nunca pensou deparar com uma mulher como Eve Morris. Ela é teimosa e ferozmente independente e não quer a sua proteção. O que, inesperadamente, desperta nele sentimentos há muito reprimidos. A sua oportunidade de os pôr em prática surge quando um parente cruel ameaça expulsar Eve de sua própria casa. Aidan faz-lhe então uma proposta irrecusável: o casamento, que é a única hipótese de salvar o lar da família. A jovem concorda com o plano. E agora, enquanto toda a alta sociedade londrina observa a nova Lady Aidan Bedwyn, o inesperado acontece: com um toque mais ousado, um abraço mais escaldante, uma troca de olhares mais intensa, o "casamento de conveniência" de Aidan e Eve está prestes a transformar-se em algo ligeiramente diferente...

Opinião
~ Nasceu um ano antes da Segunda Guerra Mundial terminar e por isso a sua infância foi marcada pelas resoluções que o pós-guerra veio trazer a toda a Europa. Gaulesa, Mary era filha de uma dona de casa e de um escritor e pintor e tem uma irmã que mais do que é a sua melhor amiga, era a sua alma gémea. Juntas leram livros, principalmente os de Enid Blynton que devoravam, escreveram histórias, escolheram a mesma carreira, a de professora de inglês. E por causa da sua escolha de carreira, Mary mudou-se para o Canadá em 1967 e lá deu aulas e não só pois acabou por lá ficar. Casou com Robert Balogh, teve três filhos e estes já lhe deram cinco netos.

  Em 1983, Mary começou a escrever o seu primeiro romance. Escrevia na cozinha, no meio do bulício de uma família activa e feliz e, dois anos depois, A Masked Deception foi publicado. Hoje já publicou mais de sessenta livros e trinta contos, romances históricos passados na Regência, Inglaterra Georgiana ou no País de Gales.

  A saga dos irmãos Bedwyn é dos seus trabalhos mais recentes e mais apreciados. Constituída por seis livros, a autora escreveu três prequelas para a série antes de publicar o primeiro livro em 2003, sendo duas delas os dois livros já publicados da autora cá. Ligeiramente Casados é o primeiro volume desta série que espera conquistar os leitores mais românticos.

  A honra é o seu segundo nome. É ela que comanda a sua vida, que esbateu os seus sonhos, que é a sua razão de viver. Por ela, faz uma promessa, uma promessa que paga uma dívida de vida mas que pudera ter um preço demasiado elevado. Ele é o mensageiro agoirento, a sua presença desfez sonhos e expectativas mas quando lhe faz a proposta que salvará tudo, ela não hesita e aceita, ela só não sabe onde se foi meter. Um casamento de conveniência, uma ligação advinda de juramentos e dívidas, um amor que pode, ligeiramente, apossar-se de duas vidas.

  Este é o primeiro livro que leio de Mary Balogh e, não tendo sido excepcional, foi contudo uma agradável surpresa. A autora tem uma escrita acessível, bastante amorosa que acaba por trazer ao de cima o que de mais terno e doce este tipo de romances têm. Através de um enredo bem construído que, ao contrário de outros do género, tem o seu próprio ritmo, um ritmo cadenciado, lento de uma boa forma e delicado, que se vai construindo a partir de pequenos pedaços de respeito, lealdade, amizade e amor, a autora dá-nos a conhecer uma família meio despedaçada, de pessoas fortes cujos temperamentos variam entre o fogo e o gelo que procuram algo mais da vida por debaixo das carapaças da arrogância, da honra e da ironia. Com alguns pormenores históricos bastante interessantes e o rigor certo que se exige deste tipo de romance, este livro acaba por ser mais do que uma história de amor pois fala-nos das ligações familiares, das diferenças sociais, do papel de cada ser numa sociedade extremamente estruturada mas longe de ser perfeita. Aproveitando a época em que decorre o seu livro, Mary incute-lhe o espírito de uma Inglaterra liberta de Napoleão, não esquecendo que não só de amor se faz este tipo de livros.

  Ligeiramente Casados não nos prende de início. Vai-se recostando, aconchegando, até não conseguirmos parar de o ler, ou seja, vai ganhando ímpeto conforme a história avança e, quanto mais ímpeto e fogo, mais adorável ele se vai tornando. Recheado tanto de momentos caricatos, ora irónicos ora simplesmente divertidos, como de momentos emotivos, este livro foge de alguns clichés, dando menos importância à tensão sexual e mais ao respeito, carinho e camaradagem de casal. Tocando no ponto dos casamentos de conveniência na mais realista acepção do termo, Mary cria algo credível, bem estruturado e em cuja realidade é fácil acreditarmos. Tenho pena que a autora não tenha aproveitado os momentos de corte para nos dar uma imagem do que seria estar na presença da Família Real como bem podia ter feito mas de resto não haja dúvida que este é um livro que prime pelo interesse e pela novidade.

  Quanto à história de amor, apesar de não ser intensa ou arrebatadora é, sem dúvida, terna, doce e amorosa. A forma como a relação vai crescendo sobre bases sólidas e como o casal se vai conhecendo e tentando fazer parte da vida um do outro é de suspirar e deixar os olhos a brilhar. As famílias de ambos são ariscas apesar de muito diferentes e todos eles nos conquistam quer de forma mais temperada, quer de forma mais intensa. As personagens secundárias são, aliás, uma das melhores coisas deste livro a par da narrativa. A começar nos patinhos feios mais maravilhosos de sempre, a acabar nos irmãos mais tempestuosos de que há memória, eles prendem a nossa atenção mesmo quando não tentam e, no caso dos irmãos Bedwyn, a nossa curiosidade é aguçada ao máximo, existindo uma grande expectativa quanto aos volumes seguintes que me pareçam, serão ainda melhores. Wulf e Freyja são os irmãos pelos quais tenho uma maior curiosidade pelas suas personalidades tão diferentes e passados tão misteriosos. Quanto a Rannulf, o próximo protagonista, tenho pena de não ter visto mais dele. Por último, uma coisa que adorei foi a originalidade dos nomes dos Bedwyn, pois apenas lhes dão ainda mais personalidade.

  Eve e Aidan são personagens típicas do seu tempo e se Aindan não é o protagonista que geralmente procuro a verdade é que pode-se considera-lo um protagonista quase perfeito. O seu sentido de honra e lealdade é levado ao extremo e a sua personalidade séria e controlada acaba por ter alguns laivos de doçura e tristeza que muito me agradaram. Já Eve, se por vezes me pareceu insonsa, também acaba por se revelar uma surpresa pela sua força e sentido práctico. Não são um dos meus casais preferidos mas acabam por ser mais reais e humanos, para além de representarem bem a sua época e estatuto social, mesmo que não tenho conseguido sentir por eles aquele clique.

  Para estreia, Mary Balogh deixou-me surpreendida e com imensa vontade de ler a restante série. A autora pode não ter um jeito especial mas leva a sua escrita a sério. Ligeiramente Casados é uma história ternurenta e amorosa mas que tem a sua própria força e personalidade. Um primeiro volume que prometa uma saga de tempestades, paixões e amor dedicado.

6*

Podem encontrá-lo aqui 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Opinião - A Cidade das Cinzas

Título Original: City of Ashes (#2 Caçadores de Sombras)
Autor: Cassandra Clare
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 360

Sinopse
 Clary Fray só que­ria que a sua vida vol­tasse ao nor­mal. Mas o que é nor­mal quando se é um Caça­dor de Som­bras? A mãe em estado de coma indu­zido por artes mági­cas, e de repente começa a ver lobi­so­mens, vam­pi­ros, e fadas? A única hipó­tese que Clary tem de aju­dar a mãe é pedir ajuda ao dia­bó­lico Valen­tine que, além de louco, sim­bo­liza o Mal e, para pio­rar o cená­rio, tam­bém é o seu pai. Quando o segundo dos Ins­tru­men­tos Mor­tais é rou­bado o prin­ci­pal sus­peito é Jace, que a jovem des­co­briu recen­te­mente ser seu irmão. Ela não acre­dita que Jace de facto possa estar dis­posto a aban­do­nar tudo o que acre­dita e aliar-​se ao dia­bó­lico pai Valen­tine… mas as apa­rên­cias podem iludir.

Opinião


  Jane Austen e J.K. Rowling têm uma coisa em comum, o facto de uma jovem autora ter começado a escrever baseando-se nas suas histórias até ao dia em que a sua imaginação a levou mais longe, a Idris e aos Instrumentos Mortais. Nasceu como Judith Rumelt no Teerão mas foi como Cassandra Clare em Nova Iorque que alcançou os seus sonhos depois de longos e tortuosos anos a escrever em revistas de mexericos. Inspirada por Manhattan, a autora decidiu escrever uma série onde a cidade fosse o palco e a alma de toda uma nova dimensão, uma série que a fez dizer adeus às revistas cor-de-rosa e a abraçar a carreira de escritora por inteiro.

  A autora que não escreve em casa porque se distrai com os reality shows e que prefere estar acompanhada pelos amigos quando está a escrever, é hoje uma das autoras mais conhecidas mundialmente graças a esse primeiro livro, publicado em 2007, chamado A Cidade dos Ossos que passou de uma trilogia a uma série devido ao seu enorme sucesso e cujo filme irá estrear em Agosto próximo. A Cidade das Cinzas é o segundo volume da trilogia original, foi traduzido para dezoito línguas e foi bestseller do New York Times bem como vencedor de alguns prémios.

  Um Caçador de Sombras não pode ter medos, um Caçador de Sombras não pode estar indeciso entre sangue e afecto, um Caçador de Sombras não pode deixar-se levar por um amor proibido. Mas quando isso acontece, e tudo em que acredita e o que é entram em confronto, ele deve escolher e nunca esquecer aquilo para que nasceu, proteger, fazer cumprir as leis, matar os seus inimigos só que nada, muito menos no seu mundo, é tão linear quanto parece e, agora, enquanto tudo vai se estilhaçar à sua volta, ele vai ter de mostrar que nada, aconteça o que acontecer, o pode impedir de ser o que realmente é, um Caçador de Sombras. 

  Depois de A Cidade dos Ossos eu pensava que já estava preparada para tudo o que Cassandra pudesse ter criado mas estava tão, mas tão enganada. Depois de uma primeira leitura explosiva, vibrante e imensamente viciante, esta revelou-se ainda mais tortuosa, surpreendente e fascinante, capaz de nos deixar de boca aberta e com o coração aos saltos tantas vezes que não ter um ataque cardíaco é uma sorte. Cassandra esmera-se ainda mais neste livro, dando-nos situações que transcendem tudo o que possamos imaginar e em que cada reviravolta é mais espectacular ainda que a anterior. Através de um mundo carismático, urbano e irreverente, a autora demonstra o porquê do seu enorme sucesso e a razão porque Caçadores de Sombras é uma série que vicia quase todos os leitores que lhe colocam a vista em cima. 

  Depois de um final que deixa qualquer um de boca aberta e a desesperar por este segundo volume, começar esta leitura é uma tortura do início ao fim num óptimo bom sentido. Tudo porque este livro é uma tal teia intricada de segredos, conspirações, mentiras e meias-verdades que o nosso cérebro não consegue parar um segundo. Cada acontecimento é feito para nos obrigar, para nos deliciarmos, a ler cada página como se fosse a última e, garanto-vos, parar antes do fim é quase impossível. Marcada por uma grande ousadia, inteligência e ironia, esta leitura satisfaz em pleno cada expectativa e ainda é capaz de a superar em grande escala.
 
  Como segundo volume de uma trilogia, pois era assim que esta série estava pensada originalmente, A Cidade das Cinzas é um dos melhores livros intermédios que já li. Nota-se que houve um cuidado e uma grande perícia por trás da sua construção, o que torna um meio não sensaborão e com pouco para dar, mas uma autêntica caixinha de surpresas que nunca nos cansa. Com um ritmo alucinante, uma perfeita noção de timing e revelações, este livro deixa-nos a morrer pelo próximo, literalmente. Não perde o ritmo do primeiro, deixa-nos loucos pelo que vem a seguir e satisfaz-nos como é possível um segundo volume satisfazer.

  Aqui podemos apreciar ainda mais as características deste mundo pois mais é nos revelado tanto do Mundo dos Habitantes-À-Parte como dos Caçadores de Sombras. A dinâmica entre espécies rivais, entre Caçadores e outros ou entre é explorada ao máximo, deixando-nos descobrir cada ligação e juntar as pecinhas do puzzle. Em termos de world building esta é uma série marcante e inovadora e mais uma vez isso se nota em cada característica ou história em que nos é apresentado e é, sem dúvida, um dos pontos de peso desta série.

  Quanto ao enredo, este é vibrante, explosivo e assustador no facto de que nunca sabemos o que nos espera na página seguinte. Adoro o facto da autora nos deixar pequenas pistas, frases de segundo sentido, peças chave por todo o lado e mesmo assim ficarmos sempre espantados com a reviravolta seguinte. A narrativa está muito bem construída, não há uma maior incidência numas personagens do que noutras e há uma perfeita noção da ligação entre acontecimentos. Muitas surpresas surgem ao longo desta leitura, muitos momentos tanto divertidos como emotivos, o que nos deixa com uma história com um balanço ideal e que nem nos cansa nem nos deixa a matutar demasiado na mesma coisa.

  A dinâmica entre personagens melhora ainda mais. Podemos conhecê-las mais a fundo e compreender os seus receios e expectativas, conseguimos perceber a profundidade das ligações sem precisarmos de palavreado exagerado para o demonstrar, e cada personagem tem algo para dar, não havendo uma tentativa de aperfeiçoamento de ninguém, nem dos protagonistas. As personagens são fortes, diferentes e marcantes, cada uma à sua maneira e todas nos dão vontade de as conhecer melhor. Jace e Clary marcam pela positiva, outra vez, e espero bem que eles tenham a sorte de haver um grande mistério a volta deles, estou a torcer por isso mas confesso, que fico satisfeita por não haver uma relação super híper mega lamechas nesta série.

  Cassandra deixa-me tão assolada que só me apetece pegar no próximo livro neste mesmo instante e confirma-me que é mesmo uma autora obrigatória na minha estante. Mais, é mesmo a senhora, dona e rainha neste género e parece-me, será difícil alguém levar-lhe o título. A Cidade das Cinzas é assim, uma continuação marcada pela positiva e que me deixou ainda mais rendida à série.

7*
 
As minhas opiniões da série 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Opinião - Ponte de Sonhos

Título Original: Bridge of Dreams (#3 Efémera)
Autor: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 448

Sinopse
 Quando os magos ameaçam Belladonna e o seu trabalho para manter Efémera em equilíbrio, o seu irmão Lee sacrifica-se para a salvar — e acaba por ser internado num Asilo na cidade de Visão, longe de tudo o que conhece. Ao mesmo tempo, umas estranhas trevas parecem estar a espalhar-se — uma escuridão que esconde a natureza dos Xamãs que cuidam da cidade e da sua população. Danyal, um dos Xamãs, é o responsável pelo Asilo. Mas talvez por estar a tentar descobrir os seus próprios sonhos, Danyal sente-se intrigado pelos aparentes delírios de Lee. Com a ajuda de Zhahar, uma mulher com os seus próprios segredos tenebrosos, a mente e o corpo de Lee melhoram, e as suas palavras começam a fazer sentido. Em breve, Danyal e Zhahar começam a vislumbrar o mundo como nunca haviam imaginado. Quando Danyal, Lee e Zhahar se unem para descobrir o que ameaça a cidade, serão obrigados a olhar para além de si mesmos — e para dentro de si mesmos — para descobrir quem são… e até que ponto podem ser demasiado perigosos.

Opinião


  Com Filha do Sangue, Anne Bishop tornou-se um dos nomes mais adorados da fantasia, principalmente no que a gótica concerne. Uma autora com uma voz única, alguém inimitável e genial, Anne tem-nos passado o seu gosto por histórias densas e românticas através das suas próprias palavras, através de personagens que nos marcam e nunca mais esqueceremos. Para além da escrita, dedica-se a jardinagem e tem um certo apreço a música bem como a sua intimidade. Apesar de não ser das autoras mais presentes, é inegável o apreço que os fãs sentem por ela.

  Oito anos depois de a Trilogia das Jóias Negras lhe ter reservado um lugar como uma das autoras de fantasia de maior sucesso, Anne deu a conhecer ao mundo uma nova realidade através de Sebastian, o primeiro volume da trilogia de Efémera, um lugar onde o coração tudo decide até onde daremos o próximo passo. Uma trilogia que tem dividido os seus leitores mas que mantém a alma negra e gloriosa das suas obras, ela chega, pensámos nós, agora ao fim, com Ponte de Sonhos.

  Antecedido pelo conto A Voz, este terceiro volume foi publicado no ano passado pela primeira vez e é traduzido agora para o nosso país, para gáudio dos fãs. 
 
  Ele viveu sempre na sua sombra. Foi o seu protector, o seu melhor amigo, a metade que sempre a compreendeu e aceitou mas perdê-la, vê-la sacrificar tudo, estilhaçou a parte dele que sempre a amou como só o melhor e o mais fiel dos irmãos pode. Mas para a salvar, para manter aquilo porque ela quase se destruiu, ele é capaz de se quebrar e separar de tudo o que sempre conheceu. Louco, construtor, professor, Lee vai compreender um seu lado que nunca viu, vai ver o seu coração, liberto da sombra poderosa, como nunca pensou ver. Numa paisagem desconhecida, onde o que conhece tem outro nome mas o mesmo poder, o construtor de pontes de Belladonna vai descobrir quem é, o amor improvável e a amizade nascida da adversidade e compreensão mas para o fazer tem de combater um mal que ainda não está erradicado.

  Anne tem um jeito, um talento para dar vida a mundos inimagináveis que ninguém consegue igualar e Efémera é um daqueles casos em que a sua imaginação supera tudo o que nem poderíamos sonhar. Novos conceitos e espécies ganham vida através de sentimentos e gestos tão próprios de Anne, que, apesar da estranheza que um mundo onde pontes apenas nos levam onde o coração manda e não a razão e onde paisagens são construídas por desejos e anseios, parece que estamos onde sempre pertencemos, num local onde tudo nos é familiar, onde a forma como sentimos é peculiar mas entendida. Mais uma vez, a autora enreda-nos numa narrativa complexa, densa e obscura onde o melhor caminha lado a lado com o pior, onde o bem e o mal se diferem por intenção e objectivo, onde os bons são tão ou mais perigosos que os maus.

  Almas atormentadas que perderam o rumo, corações divididos entre dever e anseios, vivem num lugar onde os sonhos são loucura, onde os desejos são anormais e onde o mal que não escapou à purga de Belladonna chegou. Aqui a visão não é um sentido conjugado aos olhos, a verdadeira visão é aquela que nos permite ver a fundo o interior das pessoas, os seus sonhos e terrores, é aquela onde nos vemos realmente como somos. A cegueira é mais complexa do que nos parece, não nos permite conhecer a verdade da alma, a razão do coração. Ao longo desta leitura, família, amor e amizade são colocados à prova através de desafios que um coração solitário, uma mente abandonada, um corpo desencontrado têm de desbravar sozinhos pois apenas a solidão, a perda total pode levar-nos ao verdadeiro rumo de nós próprios.

  Não sendo o melhor trabalho de Anne, Ponte de Sonhos tem os melhores ingredientes das suas obras mas, fica a faltar algumas explicações sobre determinados assuntos, um fecho mais sólido que seria de esperar do fim de uma trilogia. A partir do fim, tudo começa a acontecer muito rápido e as últimas páginas, apesar de mais lentas, acabam por deixar algumas dúvidas. Mas acaba por ser um livro satisfatório, onde alguns desenrolares surpreendem e, mais uma vez, a família tem um peso enorme, proporcionando-nos muitas das cenas caricatas entre amigos, irmãos, amantes, pais e filhos, que só Anne nos sabe dar. Ou seja, este livro não desilude mas deixa algo inconclusivo no ar que faz parecer ainda não ter terminado por aqui as aventuras em Efémera.

  As personagens, como sempre, são estonteantes, magníficas, densas e complicadas, com alguns acrescentos bem surpreendentes. Aliás, as surpresas chegam-nos do lado das novas personagens, sendo que uma delas bem nos deixa pensar e acaba por conseguir concentrar toda a nossa atenção. Como acontece quando seguimos sagas, rever personagens já conhecidas é sempre um prazer principalmente quando, mesmo mudados, conseguem transmitir-nos as mesmas sensações de antes. Belladonna, continua, mesmo não estando tão presente, a ser a grande personagem de Efémera mas Lee ao dar-se a conhecer mais profundamente, conquista-nos e mostra que também consegue ser um bom protagonista.

  Ponto positivo, por último, à forma como a autora utilizou elementos de A Voz neste livro. Reencontrar e conhecer melhor algumas personagens do conto e puder saber o que lhes aconteceu, foi uma prenda muito querida da autora que só posso apreciar. As ligações entre conto e livro são construídas com perícia, sem desvendar muito para quem não leu o conto e permitindo a quem leu notar os elementos existentes em ambos.

  Sendo a minha autora preferida, Anne nunca me desilude mas confesso que esperava um pouco mais deste livro e, ao mesmo tempo, anseio para que haja mais. Ponte de Sonhos é uma porta aberta a verdadeira visão, aos ensinamentos do coração e, mesmo não sendo o melhor, é um livro obrigatório na estante de qualquer bishopiano.

6*
 

Outras opiniões da série
A Voz