domingo, 18 de janeiro de 2015

Opinião - Tigana, A Voz da Vingança

Título Original: Tigana (#1.2 Tigana)
Autor: Guy Gavriel Kay
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 320


Sinopse

O príncipe Alessan e os seus companheiros puseram em marcha um plano perigoso para unir a Península de Palma contra os reis despóticos Brandin de Ygrath e Alberico de Barbadior, numa tentativa de recuperar Tigana, a sua terra natal amaldiçoada. Brandin é um rei maquiavélico e arrogante, mas encontrou em Dianora alguém à sua altura e está cativo da sua beleza e charme. Alberico está cada vez mais consumido pela ambição, cego a todas as ciladas em seu redor. Entretanto, o nosso grupo de heróis viaja pela Península, em busca de alianças e trunfos decisivos que podem mudar a maré da batalha a seu favor. Alessan está mais moralmente dividido que nunca, Devin já não é o rapaz ingénuo que era, Catriana apenas deseja redenção e Baerd descobre uma nova magia na Península. Conseguirá Tigana vingar a memória dos seus mortos? Ninguém consegue prever o fim nem as perdas que irão sofrer. Sacrifícios serão feitos, segredos antigos serão revelados e, para uns vencerem, outros terão forçosamente de tombar.



Biografia
  Quando Christopher Tolkien precisou de um assistente para editar o trabalho do pai, escolheu um estudante de Filosofia cujos pais eram amigos da sua segunda esposa, Baillie, um jovem chamado Guy Gavriel Kay. Guy mudou-se para Oxford em 1974 para ajudar Christopher com a edição d’O Silmarillion e durante esse processo aprendeu bastante sobre escrita e edição e também ganhou um gosto pela fantasia, um gosto que o levaria, após terminar a sua graduação em Direito, a começar a escrever ficção.

  Anos mais tarde, Guy publicou o seu primeiro livro, A Árvore do Verão, o início da trilogia A Tapeçaria de Fionavar, onde a influência de Tolkien era bem visível e que foi lida por gerações de leitores. Mas, foi em 1990 que Guy Gavriel Kay encontrou o seu lugar na Fantasia, com um livro que pela primeira vez mostrou a sua voz e estilos únicos e que iriam marcar todos os livros que seguiram. 

  Tigana é a obra-prima de Kay, o livro que revolucionou a Fantasia Histórica apesar de o autor preferir dizer que os seus livros não têm um género específico. Vencedor de dois prémios, nomeado para o Aurora, Tigana foi publicado em 1990 e está traduzido para dezasseis línguas.


Opinião
  Quando iniciei a leitura deste livro, há mais de um ano atrás, com a primeira parte, A Lâmina na Alma, tive a certeza de uma coisa. A certeza de que Guy Gavriel Kay é um mestre, um autor como poucos. Alguém que escreve com alma e coração, que entende, como ninguém, a plenitude e complexidade, não só do ser humano, como do que nos forma e diferencia. É sempre com genialidade que cria culturas e línguas, nações e políticas. É com uma voz de beleza ímpar que nos enche de arrebatamento com as suas histórias épicas, do mesmo cariz das lendas. A Voz da Vingança é aquilo que esperava que fosse: um final glorioso. Comprova, em absoluto, o porquê de Tigana ser considerado uma obra-prima. Termina, de forma perfeita, uma história que se fez de sangue, lágrimas e suor. Uma história magnífica sobre o poder do amor. Seja a uma pessoa, seja à pátria, seja a uma canção. Seja a um simples nome.

  Sabemos, desde o primeiro instante, que este não será um final feliz. Seja o que for que aconteça, sabemos que iremos sofrer. Sofreremos porque não conseguimos tomar partidos, porque esta história não é feita de heróis nem vilões, mas sim de homens e mulheres que a vida, o acaso e as escolhas, levaram por caminhos cobertos de fatalidade, caminhos nascidos das perdas, da desolação, da vingança e da justiça. Por isso, para uns vencerem, outros terão de perder. Para uns viverem, uns terão de morrer. Pois para a vingança se realizar, para a justiça ser feita, mais uma vez, tudo terá de mudar. E enquanto esta percepção toma conta de nós e nos asfixia e destrói, vemos o destino correr sem piedade, numa narrativa poderosa e sublime sobre a força das recordações, do reconhecimento de pertencermos a algum lugar, do amor seja a quem e ao que for.

  Num complexo puzzle cujas peças finalmente se encaixam, revelando não só crueldades enterradas mas também uma esperança fulgurante, apercebemo-nos que tudo é um ciclo vicioso, a menos que se perdoe, o que por vezes é impossível, porque não podemos esquecer actos de rancor e obsessão, não podemos esquecer as recordações, os rostos, as canções, o nome que foram a nossa vida. Mas, a tragédia patente nas palavras que formam esta narrativa, fala-nos também disso mesmo, de quando se perdoa, de quando se esquece, conseguindo assim a redenção e a felicidade que nunca pensámos encontrar. Ensina-nos, então, o respeito à memória e à pátria, a dívida aos caídos e perdidos, a obsessão da vingança. Na realidade, o perdão que pedimos na alma apesar de nunca o expressarmos em palavras. Mas também nos ensina que podemos seguir em frente, que podemos perdoar e recuar, que podemos amar o inimigo, que podemos sacrificar a vida, não pelo que foi, mas pelo que será.

  Alessan, Dianora, Baerd, Brandin, Devin, Catriana, e todas as outras personagens, tão belamente executadas, são ambíguas e complexas. São personagens feitas de luz e escuridão, de erros e glórias, de defeitos e qualidades. Não há santos nem pecadores nesta história. Há sim, personagens inesquecíveis que, cada uma à sua maneira, nos marcam pelo que são. Peões do destino que tentam mudar o rumo das suas vidas, que aprenderam pelas suas tristezas a procurar a felicidade e a aceitar quando a encontram.

  Tigana é uma obra-prima. É um livro que, quem o ler, jamais será capaz de o esquecer. É a prova que Guy Gavriel Kay não precisa de ser o herdeiro de nenhum autor de renome porque ele é um daqueles autores que nasceu com um dom só seu.


A minha Opinião da 1ª Parte

Sem comentários:

Enviar um comentário