sábado, 21 de fevereiro de 2015

Opinião - A Cada Dia

Título Original: Every Day (#1 Every Day)
Autor: David Levithan
Editora: Topseller
Número de Páginas: 288


Sinopse
A cada dia um novo corpo. A cada dia uma nova vida. A cada dia o mesmo amor pela mesma rapariga.

A cada dia, A acorda no corpo de uma pessoa diferente. Nunca sabe quem será nem onde estará. A já se conformou com a sua sorte e criou regras para a sua vida:

Nunca se apegar muito. Evitar ser notado. Não interferir.

Tudo corre bem até que A acorda no corpo de Justin e conhece Rhiannon, a namorada de Justin. A partir desse momento, as regras de vida de A não mais se aplicam. Porque, finalmente, A encontrou alguém com quem quer estar a cada dia, todos os dias.


Biografia
  David Levithan publicou o primeiro livro em 2003, tendo neste momento dezoito livros publicados, alguns em colaboração com outros autores, para além de ter colaborado em várias antologias. É também editor fundador da PUSH, uma chancela da Scholastic Press. Nos tempos livres tira fotografias.

  A Cada Dia foi publicado em 2012 e está traduzido para catorze línguas. Ganhou dois prémios e foi nomeado para outros três.


Opinião
  As probabilidades de eu não gostar deste livro eram tão pequenas que nem sequer coloquei essa hipótese. Afinal, A Cada Dia nada mais tem suscitado nos seus leitores senão o êxtase. O que é compreensível se lermos a sinopse promissora que evoca de imediato a vontade de o adorar aos pedacinhos pois ninguém, sejamos sinceros, resiste ao amor e, muito menos, ao que está condenado à tragédia. Se juntarmos à isso a escrita pura e lindíssima de Levithan, aquela crueza sincera e tempestivamente delicada, então temos a certeza absoluta que encontrámos um vencedor. Eu pelo menos tinha. E acreditei piamente que isso tinha acontecido, até que o desastre aconteceu. O momento em que me apercebi que ia ser uma das raras excepções. Talvez enevoada pela escrita divina deste autor, talvez porque a minha vontade de o adorar era tanta, consegui ignorar a sensação desconfortável que este livro me provocava quando pensava nele. Pois era Levithan, era o livro que todos tinham adorado, logo eu também tinha certo? Então porque é que quando comecei a escrever sobre ele me apercebi que não sentia nada mais para além de uma desilusão crónica e esse desconforto insistente? E foi então que o comboio descarrilou e tive a minha primeira crise existencial literária.

  A verdade trágica e assustadora é que eu não gostei do livro. Prendam-me mas não posso deixar de ser sincera comigo mesma. Amo loucamente a escrita de Levithan, sem quaisquer dúvidas, tanto quase como detesto esta história. Sim, fui capaz de escrever esta palavra em relação a este livro. Porquê? Porque esta narrativa gira em torno de um amor no qual não acredito. Um amor cujo pior obstáculo é ele mesmo. Um amor que vejo como platónico e obsessivo, não profundo e sincero. Mas pior do que isso, e daí o desconforto que me azeda, é um sentimento que coloca pessoas alheias em perigo. Eu sei que A é uma entidade e que só assim ele pode viver mas não aceito, recuso-me a aceitar, que para ele ser feliz, pessoas que perdem um dia da vida delas ainda são usadas para fazer coisas que normalmente não fariam, coisas que poderão ter consequências na sua vida, que podem irreversivelmente alterá-las para sempre. Elas não são culpadas de A não ter um corpo. Essas pessoas também são vítimas. E não me interessa que sejam delas mesmas, pois cada um é livre de usar o seu corpo como bem entender. E tomar as decisões que quiserem, a menos que isso prejudique outros. A ideia só em si, de alguém tomar o meu corpo por um dia, e amanhã eu acordar e saber que fiz uma coisa que não me lembro do porquê, é aterradora. E eu sei que A tem consciência disso, que durante 16 anos ele não o fez, mas há um dia, vários dias em que essa consciência não lhe diz nada.

  Como se isso não bastasse, fui levada a acreditar que esta história é sobre o ser humano, sem importar o género ou a raça. Que ao longo deste livro conheceria e seria devastada com terríveis realidades ou seria maravilhada com existências felizes. Só que os hospedeiros como A lhes chama, não mais são senão veículos para A puder estar com Rhiannon. Há tão pouco sobre estas pessoas senão estereótipos, linhas gerais. E isso irrita-me porque eu queria conhecer essas pessoas. Queria ter explorado os seus dias, queria conhecer os seus problemas, defeitos, qualidades. Queria saber quem eles eram para lá da suicida, do cromo, do cabrão, do obeso, da transsexual, do homossexual, do jogador, da rainha da turma, do surfista. Queria ser eles por umas páginas por mais que doesse. E isso não acontece. O que o autor nos dá não me chega, nem de perto nem de longe. Porque eu só tenho um vislumbre de quem são em segundos, porque essas pessoas são de seguida arrastadas para uma cruzada impossível.

  O que me leva, finalmente a A. O que dizer de A senão que a única coisa que partilho com Rhiannon é a sua desconfiança nele? Claro que tive pena dele, e posso tê-lo compreendido nalguns momentos mas também vi como julga os outros, como é obcecado e invejoso, como persegue sem piedade uma miúda perdida e sem amor. E sinceramente, ele podia ser tudo isto, porque somos tão feios como belos se o autor desde o início do livro não me tivesse impingido a ideia de que eu tinha de gostar dele. Não gosto Levithan, não gosto que tenhas disfarçado os defeitos dele com os dos outros. Quanto a Rhiannon, ela foi me indiferente em muitos momentos mas conseguiu transmitir algo quando desconfiava de A e pensava seriamente na relação deles. Quando isso acontecia, quase podia entrever a personagem forte que ela poderia ter sido em vez do pãozinho sem sal triste e sensível que aturei no resto do livro.

  A Cada Dia é uma pedra no meu coração, acreditem. Porque nada mais lhe queria dar senão a minha adoração e bem o tentei. Mas não posso, nem por mais que continue a achar que David Levithan tem uma escrita que evoca os anjos. Voltarei a este autor sei disso, mas não será este o livro que guardarei quando pensar naquele que converteu em fã deste autor. Vou guarda-lo sim num lugar à vista para me lembrar que posso não gostar de algo que todos adoram. Para me lembrar que um livro deve-nos fazer pensar, mesmo que isso o torne ingrato aos nossos olhos.

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